PARA ONDE ESTAMOS INDO?


Como você avalia, no recorte de direitos humanos, a situação de indígenas, na atualidade, sob a pressão de grandes obras de infraestrutura, como hidrelétricas, e Projetos de Lei e ações governamentais de diminuição de terras indígenas?
Kaká Werá: A pressão de grandes obras de infraestrutura em locais que por direito é destinado à povos indígenas ou à preservação ambiental é uma ação permanente e desestruturante social e ecologicamente não somente para as comunidades locais, mas para todos nós. Quando eu digo “nós” eu quero dizer todos os brasileiros em particular e todos os seres humanos em geral. Parece exagero, mas atualmente temos a própria ciência para demonstrar o estrago global quando um pedaço de ecossistema é destruído. Não sou contra obras de infraestrutura, mas atualmente temos tecnologia e inteligência para realizar obras de mínimo impacto e ecologicamente viáveis. De modo que essa questão ultrapassa a linha dos direitos humanos. Essa questão é de uma ordem bem maior, envolve um paradigma civilizatório. Que é, de um lado o desenvolvimento impulsionado pela cobiça e ganância, e do outro lado um desenvolvimento baseado no cuidado ambiental e no respeito à pluralidade de culturas tradicionais.
Com relação aos Projetos de Lei de diminuição de terras indígenas, eles estão baseados em uma patologia que domina parte dos congressistas: ignorância vestida de corrupção e ganância. Observe que todos os que defendem a diminuição de terras são os mesmos que amealharam milhões de empreiteiras e que estão na temida lista da Lava Jato. São indivíduos decadentes moral e eticamente, mas que se arvoram e se fortalecem de conluios no poder legislativo. Nesse sentido, temos que fazer um esforço muito grande, enquanto sociedade civil, para tirá-los de lá pelo voto consciente.
O que difere os períodos anteriores passando pelo descobrimento, colonização e governos no tocante ao contexto indígena do Estado Democrático de hoje e seus direitos conquistados? – Há armadilhas nesse no suposto Estado de Direito, em sua avaliação?
Kaká Werá : Da época da colonização para cá houve até certa evolução no relacionamento com os povos indígenas. No início, foram escravizados, depois com a substituição pela escravização africana foram perseguidos para serem mortos e desde esse momento foram considerados “estorvo” para o progresso. Somente depois da metade do século XX é que começou a haver um interesse mais humanista pela diversidade étnica brasileira. Com o advento da democracia também vem o movimento de cidadania indígena. O nosso desafio hoje é sair da armadilha assistencialista que o Estado promove e ganhar autonomia social. Não dá para a sociedade continuar ignorando o índio cidadão: que estuda, se forma e que adquire novos conhecimentos antes privilégios somente de uma falsa sociedade “branca” e que mantêm os valores fixos nas suas raízes ancestrais e sagradas.
Durante a semana haverá diversas manifestações pelo País tendo seu ápice nesta quarta-feira (19), Dia do Índio, para alertar a sociedade dos retrocessos e ameaças aos direitos indígenas. Como será a atuação da Secretaria de Políticas Indígenas do Partido Verde?
Kaká Werá : Durante a semana dedicada ao “índio” diversas organizações das mais variadas matizes ideológicos estão preparando atos públicos. O que todas têm em comum é alertar para o perigo que estamos passando com a possibilidade de vermos os Projetos de Lei que destroem a natureza e desestabiliza mais ainda as comunidades indígenas se tornando oficiais. Queremos alertar a sociedade brasileira que esses projetos beneficiam somente três tipos de pessoas: os executivos de empreiteiras, e os produtores de veneno para a terra, que chamam de “agrotóxicos” e os interessados em minério do subsolo amazônico. E podem ter certeza que os possíveis lucros monetários advindos disso não serão compartilhados com o cidadão comum e honesto, seja ele de classe baixa, média ou mesmo alta. Quem se beneficia é meia dúzia de pessoas que nem no Brasil vivem.
Faça uma reflexão análise sobre a atual situação das etnias indígenas do Brasil.


Kaká Werá :  O Estado brasileiro viciou durante o período do militarismo no Brasil e até o presente momento o assistencialismo barato que causou uma enorme dependência social de muitos povos indígenas. Hoje, o governo não dá conta nem de suprir essa política assistencialista. Infelizmente, muitas lideranças indígenas exigem o retorno desse tipo de política pública que representa um retrocesso tanto para a própria cultura indígena como para a sociedade brasileira como um todo. A Secretaria de Assuntos Indígenas do Partido Verde defende o desenvolvimento e a valorização da economia criativa através da arte, do artesanato e do conhecimento como uma estratégia para a emancipação de pessoas e comunidades indígenas tanto nas regiões que se limitam entre a floresta e as cidades como nos centros urbanos. Com isso, queremos transmitir a seguinte mensagem: a sociedade que queremos deve ser sustentável: social, ecologica e economicamente.

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