domingo, 31 de julho de 2016

Demarcar os Territórios de nossa dignidade

Aqueles que me conhecem sabem que um dos meus principais trabalhos se relaciona diretamente com a natureza. A mais de duas décadas conduzo grupos de pessoas para as matas, através de trilhas e clareiras, em roteiros com o propósito de sensibilização, contemplação e de autoconhecimento. Sempre integrando á paisagens naturais, uma sabedoria ancestral, que convencionamos chamar de indígena, mas que vem de diversas culturas nativas brasileiras, predominantemente tupy e tapuia.  
Desde 1994 tenho abordado atividades pelo enfoque em valores humanos e cultura de paz, quando comecei na Fundação Peirópolis de Educação em Valores Humanos e na Unipaz; organizações que atuo até hoje. Estas instituições me propiciaram um aprofundamento em estudos nas tradições indígenas do Brasil e me deram a oportunidade de difundi-las em cursos, seminários e imersões.  
No entanto, além de professor e facilitador de seminários e cursos; desde meados dos anos oitenta, com o povo guarani de São Paulo, destino considerável parte do meu tempo em projetos sociais em comunidades indígenas. Os povos do sudeste e do nordeste também tem sido o meu foco de atuação e desenvolvimento de pequenos suportes, na grande maioria das vezes, voluntários.    
As comunidades indígenas de modo geral são extremamente dependentes de programas assistencialistas governamentais á décadas, e isto enfraqueceu não somente a identidade cultural, mas também a dignidade social de diversas etnias; influenciando diretamente em sua capacidade de sustentação econômica e ecológica. Quando percebi este quadro no fim dos anos oitenta, juntamente com amigos e depois com minha família, colocamos em curso uma série de iniciativas em direção á valorização cultural e geração de renda. Foi assim que passamos a fomentar apresentações culturais para os guaranis, kariris, pataxós. Estimulamos a gravação de CDs, produção de livros, inserção em seminários, fóruns, congressos.  E isto causou um choque em uma parcela da sociedade que via na época, início dos anos noventa, o índio como algo fadado á extinção, ou cuja cultura não poderia transcender os limites de seus modos tradicionais de vida.
Neste período alguns povos começaram a buscar alternativas sustentáveis e foram criando certa independência social. Este fenômeno aconteceu simultaneamente na Amazônia, no Nordeste, no Sudeste e nas áreas urbanas. E modelos se influenciaram mutuamente. Em minhas empreitadas pelas aldeias sempre coloquei a importância de aliarmos três causas: a questão da cultura, a questão da educação e a questão do ambiente. Entendia a cultura como uma qualidade imprescindível e local a ser cuidada, a educação como uma ferramenta de combate á distorções históricas em relação ás nossas raízes afro-tupi que geraram discriminações e desestruturações sociais; e o ambiente como um bem global a ser manejado com sabedoria e cautela. 
Com o passar do tempo, projetos e ações foram se realizando, e com isso veio alguns inesperados reconhecimentos. Em 2003 a Bovespa criou um braço de apoio á projetos ambientais para organizações do terceiro setor e me chamou para ser um dos doze conselheiros. Em seguida, 2005, a Ashoka Empreendedores Sociais, entidade de reconhecimento mundial, me honrou com a valorização e premiação da idéia que gerou uma nova tecnologia social voltada para as comunidades as quais eu trabalhava na época e que foi aperfeiçoada através do Instituto Arapoty.  Descobri que era um empreendedor social, ao unir equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Fui chamado para falar disso em diversos países, como Estados Unidos (em San Francisco, Stanford), França (na UNESCO) e Inglaterra (Oxford) em ambientes de públicos diversos, como líderes religiosos, líderes do terceiro setor e empresários.
  Em 2010 a revista Trip reconheceu o conjunto de ações que desempenhava como transformadoras da sociedade, o que para mim e a equipe de trabalho que me acompanha á décadas, foi uma grata e feliz surpresa. Foi nessa época que comecei a achar que passava da hora de haver uma política pública que saísse de premissas assistencialistas para um novo paradigma; o empreendedorismo sustentável e cooperativo. Já havia algumas experiências de sucesso com o Instituto Arapoty, com aliados como Marcelo Rosenbaum, onde sou seu parceiro no programa social A GENTE TRANSFORMA e o Instituto Elos, onde á 14 anos formamos na ESCOLA DE GUERREIROS SEM ARMAS, um novo tipo de protagonismo juvenil com foco na cooperatividade e desenvolvimento de cultura de paz.
De 1994 á 2014 trabalhamos em mais de 90 pequenas comunidades: indígenas, rurais, favelas, cortiços, caiçaras, populações ribeirinhas; recuperando valores culturais e dignidade social. Foram mais de 10.000 famílias que se tornaram gestoras de sua condição econômica e cultural. Projetos realizados com muito voluntarismo, poucos recursos financeiros iniciais e muito respeito á diversidade. Estas iniciativas fecundaram em mim uma síntese de experiências passíveis de colaborar também em propostas de políticas públicas.


O projeto Territórios da Dignidade pretende justamente trazer a voz de líderes e comunidades indígenas para que a sociedade esteja atenta e se abra para acolher propostas de políticas dessas vozes e de nossas raízes. Mas basicamente que saia da condição de dependencia social  e assistencialismo para um empreendedorismo fundamentado no cuidado, manejo adequado de recursos, valorização de culturas locais para o resgate da dignidade de nossas raízes ancestrais.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

É preciso olhar para o Céu com os pés na Terra

É preciso olhar para o Céu com os pés na Terra na direção do Coração.

O Grande ritual da vida

FOTO: SAWARA S. SANTOS
O aprendiz perguntou ao velho Pajé qual o ritual mais poderoso, qual o grande ritual que poderia trazer benefícios para toda a vida, e qual seria aquele que daria o poder de vencer inimigos.
O Velho Pajé acendeu o fogo no chão e jogou umas folhas secas que exalaram um perfume prazeroso e tranquilizador.
O chão de terra batida e limpo da oca promovia o sagrado do clima.
A luz do fogo clareou o ambiente, era um momento âmbar, quase dourado.
O Velho Pajé olhou para a ansiedade do jovem:
- Pequeno caminhante, antes de mais nada, um ritual é um diálogo que se realiza com o espírito da tempo, o espírito do espaço e o espírito das intenções que se promove. Toda intenção perversa, maledicente, vingativa, caluniadora, e outras procedências ruins, não possuem o verdadeiro poder. Além disso, um ritual pode se transformar em um hábito, uma crença, ou uma tradição. Ou seja, pode se transformar em uma ação contínua e degradante, se for mal intencionado.
- Então não existe ritual poderoso!
- Sim, existe. o ritual mais poderoso é o de poder ajudar alguém a se re-erguer nos momentos de debilidade ou desarmonia. E isto só é possível com um coração preenchido da compaixão, do amor incondicional, e da sabedoria para orientar de acordo com a necessidade e a possibilidade de cada momento. este é o grande ritual da vida!

domingo, 24 de julho de 2016

A arte do trovão criador

A expressão "trovão", dentro do contexto da filosofia tupi, se refere ao aspecto "criador" do consciência.  O ser humano é em essência um "trovão" criador. Dotado de relâmpagos que na língua inglesa são chamados de "insights". Há nele também os lampejos intuitivos. Os clarões criativos. Os trovejares das idéias, dos ideais, das possibilidades.
Esse trovão é algo á ser conhecido melhor por cada um de nós. Pois somos nós, mas ao mesmo tempo não temos ciência disso. Embora façamos uso de suas qualidades, pois afinal de contas, é a nossa própria consciência.
Já o vento é o corpo do trovão. O vento é o espírito do ser propriamente dito. Mas é um vento que não se extingue. É o vento da vida que nos habita e que vibra tudo que há. Tudo que é. E esse vento é um tema central de uma ancestral pergunta humana: o que verdadeiramente somos nós?
Uma das mais antigas culturas desse lados das Américas, a tupi-guarani, se debruçou na busca da resposta a essa pergunta e desenvolveu uma das mais ricas, poéticas e complexas filosofias da humanidade;  o "ayvu rapyta", que se traduz como " os fundamentos do Ser". Um conjunto de cânticos, entoados secularmente nas aldeias guaranis, que pouco á pouco foram sendo proibidos pelos antigos missioneiros, até que os últimos pajés cantadores se reúnem em torno de Pablo Werá, e concordam em torná-los públicos. O que é feito por um amigo confiável deles: Leon Cadogan.
Essa história eu conto no livro O TROVÃO E O VENTO, editado pela Polar editorial em parceria com o Instituto Arapoty.  Trata-se não de um resgate de um saber, mas de uma semente de um conteúdo para inspirar um futuro melhor para a nossa querida e amada Mãe Terra e para as gerações que estão chegando. Esse é meu sonho. De poder contribuir com essa semeadura.



Mudar a história

Índios são ameaçados por desastres sociais, reservas indígenas são invadidas por garimpeiros, índios são bombardeados em ônibus vindos da escola rural. São diversas as más notícias sobre índios que ocorrem neste momento, principalmente entre o norte, o nordeste e o centro do Brasil.
A degradação acentuada da amazônia atinge diretamente inúmeras pessoas de tradição indígena, caboclos, ribeirinhos. além de todos os ecossistemas desta região.
Por trâs disso está uma mentalidade centrada em um falso progresso e em um falso desenvolvimento, pois embora diretamente em curto prazo são estes povos os afetados, na verdade toda a sociedade torna-se vítima de tal modo de agir, pois á médio prazo estas ações produzem catástrofes sociais, naturais e anti-naturais em diversas regiões do país.
Só o uso adequado dos recursos naturais, o investimento em geração de energia limpa e um enorme esforço da sociedade urbana em partir para um consumo ecologicamente correto pode atenuar muitos dos problemas sociais que ora estão vigentes em todos os lugares do país.
Estamos vivendo uma crise sem precedentes na história da humanidade, e a raiz desta crise está no modo como lidamos com os recursos naturais, o modo como lidamos com as pessoas de diferentes origens e culturas, o modo como lidamos com a economia: colocando a ganância á frente da correta prosperidade; e também o modo como lidamos conosco mesmos: medos, crenças reacionárias, valores mediocres. Estas são as raízes da crise.
Temos que assumir uma outra postura e comportamento urgente com os recursos naturais, substituindo a voracidade pelo manejo adequado, pelo respeito e pelo cuidado.
Temos que assumir uma outra postura e comportamento urgente em relação  as diferentes pessoas e culturas, substituindo o preconceito e intolerância pelo respeito e acolhimento.
Temos que assumir uma outra postura em rela;cão á economia e as nossas considerações de riqueza e prosperidade. Considerando o equilíbrio ecológico, social e qualidade devida como riqueza.


Temos que assumir uma outra postura com relação á nós mesmos; assumindo a responsabilidade e a necessidade de transformação interna, eliminando medos, falsas crenças e acolhermos aquela qualidade inerente ao ser, a compaixão. 

Felicidade é só questão de sintonia

sábado, 23 de julho de 2016

O Sentido da Vida

Acredito que muitas vezes não nos damos conta de que o que nos causa grande insatisfação é o impedimento da nossa auto-expressão em determinados setores de nossas vidas. Situações e fatos vão surgindo em nossos caminhos e vão nos deixando marcas de sofrimento: agressividades, culpas, raivas, mágoas. Assim vamos sendo absorvidos por tais experiências negativas e desalentadoras, carregando- as por longo tempo como uma cruz nas costas.
    A vida me ensinou que não lembramos o mau que causamos as pessoas, mesmo as próximas e queridas; mas não esquecemos jamais aquelas que nos causam mal, mesmo as mais distantes. Me lembro de diversas vezes em minha jornada em que me senti paralisado, achando que todos estavam contra mim ou que ninguém me entendia. 
    Buscava algo mas não sabia o que! Andava em círculos de desânimos e desconfianças. Oportunidades apareciam, mas não as percebia. Quando vislumbrava algo melhor, não me achava merecedor de vivenciá-lo. Mas uma das mais terríveis sensações que tive que suportar foi uma espécie de indefinição existencial, um misto de tédio e solidão. E o incrível é que estas coisas apareciam invariavelmente ao lado de escassez financeira ou carência afetiva. 
     Acontece que normalmente buscamos a felicidade, o bem estar ou a realização pessoal onde ela não está. Um dos motivos é que em uma fase de nossas vidas temos a tendência de achar que dependemos exclusivamente dos outros ou de circunstancias totalmente externas. As vezes almejamos o sucesso do outro, a alegria do outro, o conhecimento ou beleza do outro. O jeito do outro; mas não queremos saber dos sacrifícios e aperfeiçoamentos internos que o outro fez pra chegar lá. Queremos dar o pulo do gato, mas não treinar a habilidade para tal. 
    Outro motivo que nos afasta invariavelmente da felicidade é o julgamento. Somos implacáveis ao apontar os erros alheios. Ás vezes somos assim inclusive conosco mesmos. Somos preconceituosos por uma deficiência cultural e carregamos essa tendência em nossos comportamentos. 
    O incrível é que realmente não percebemos características negativas em nós. A não ser muito tempo depois, quando nos tornamos mais velhos e fazemos uma auto-avaliação de atitudes pessoais e reflexões sobre nossas crenças, mas isso é muito difícil de acorrer, pois para tal deve haver uma busca com certa intensidade e honestidade consigo mesmo. 

    Como qualquer ser humano, já passei por terríveis momentos de infelicidade. Alguns desses duraram anos á fio. Outros duraram horas. Pois por incrível que pareça as vezes carregamos por décadas alguns sofrimentos que na realidade duraram horas, devido ao fato de sua intensidade ter sido tamanha que ficamos presos a determinadas memórias por muito tempo. Se nos libertamos dessas memórias e buscamos entrar em sintonia com o melhor que habita em nós, aquilo que verdadeiramente faz sentido, inevitavelmente seremos melhores. Para nós mesmo e para as nossas relações.

O Trovão e o Vento


É com grande alegria que anunciamos a publicação de mais este importante livro, que contém os preciosos fundamentos de uma das grandes tradições espirituais da América do Sul: a tradição ancestral tupi-guarani! "Desde os últimos duzentos anos de peregrinação tupi-guarani, existe uma profecia que fala do retorno de Tupã no coração dos Homens, para iniciar ‘a quarta humanidade’. Segundo essa antiga tradição, Tupã é um dos nomes do Grande Espírito, do Sagrado Mistério, da causa de toda emanação de vida. É a Consciência Infinita, presente, mas adormecida em nossos corações e mentes, que precisa ser despertada. Existe uma via chamada ‘Apecatu Ava-porã’, que significa O Caminho do Homem Sagrado. É um método de aprimoramento pessoal em que a natureza e suas forças apoiam o ser humano em seu alinhamento, despertar e integração da consciência a partir de músicas, meditações e sons apropriados. Para isso, ‘há que se conhecer o Trovão e o Vento’, diziam os antigos mestres Nessa via, o Trovão representa o despertar da força interior. O Vento representa o despertar da suavidade interior. Para que a força e a suavidade do indivíduo floresçam, é necessário que ele conheça os princípios de Tupã, purificando sua consciência pela poesia direta que emana da natureza. Mas há que se abrir para ela! - Trecho da Apresentação de Kaká Werá

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BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...