sábado, 30 de abril de 2016

Tradição e Ancestralidade

Considero que o estudo de tradições antigas de sabedoria e culturas ancestrais deveriam ser uma disciplina obrigatória nos sistemas educacionais. Existe um motivo fundamental para isso. As experiencias daqueles que nos antecederam devem servir de base para o presente e de inspiração para o futuro. Além disso, os estudos destes saberes deveriam ser a partir de uma proposição holística. Ou seja, o que a ancestralidade da África, da China, da India, das Américas, dos Árabes possuem de essência consolidada em termos de sabedoria deveriam ser disponibilizados para as gerações presentes como uma maneira de inclusive promover a dissolução de estranhezas que geram preconceitos.
Vejo o mundo moderno perdido, embora dotado de sofisticados saberes tecnológicos, e frágil em relação á valores e sustentabilidade porque não tem um vínculo justamente com aquilo que permite algo se sustentar e gerar bons frutos: as raízes. E das raízes, o néctar de saberes que elas disponibilizam.
Considero que um educação ideal é aquela que estimule o respeito ás milenares experiencias, promova o espírito criativo e estruture a consciencia com valores universais. Por isso a ancestralidade das culturas e tradições são imprescindíveis. 
Também entendo que uma das fragilidades sociais do Brasil é justamente não olhar detidamente e respeitar as diversas culturas ancestrais que povoaram o País desde épocas remotas. O estado brasileiro desde o período das capitanias hereditárias, passando pelo Império e pela República até os tempos atuais tem agido com estas raízes como se elas não tivessem nenhuma contribuição á dar. Além do mais, não consideram as contribuições já dadas; não só em termos de genealogia como também em termos culturais e sociais.  Por isso creio que existe uma questão á resolver tão funda quando a questão econômica,  que é o valor das raízes para a árvore da nação.



domingo, 17 de abril de 2016

DEMARCAR O TERRITÓRIO DA NOSSA DIGNIDADE



Aqueles que me conhecem sabem que um dos meus principais trabalhos se relaciona diretamente com a natureza. A mais de duas décadas conduzo grupos de pessoas para as matas, através de trilhas e clareiras, em roteiros com o propósito de sensibilização, contemplação e de autoconhecimento. Sempre integrando á paisagens naturais, uma sabedoria ancestral, que convencionamos chamar de indígena, mas que vem de diversas culturas nativas brasileiras, predominantemente tupy e tapuia.  
Desde 1994 tenho abordado atividades pelo enfoque em valores humanos e cultura de paz, quando comecei na Fundação Peirópolis de Educação em Valores Humanos e na Unipaz; organizações que atuo até hoje. Estas instituições me propiciaram um aprofundamento em estudos nas tradições indígenas do Brasil e me deram a oportunidade de difundi-las em cursos, seminários e imersões.  
No entanto, além de professor e facilitador de seminários e cursos; desde meados dos anos oitenta, com o povo guarani de São Paulo, destino considerável parte do meu tempo em projetos sociais em comunidades indígenas. Os povos do sudeste e do nordeste também tem sido o meu foco de atuação e desenvolvimento de pequenos suportes, na grande maioria das vezes, voluntários.    
As comunidades indígenas de modo geral são extremamente dependentes de programas assistencialistas governamentais á décadas, e isto enfraqueceu não somente a identidade cultural, mas também a dignidade social de diversas etnias; influenciando diretamente em sua capacidade de sustentação econômica e ecológica. Quando percebi este quadro no fim dos anos oitenta, juntamente com amigos e depois com minha família, colocamos em curso uma série de iniciativas em direção á valorização cultural e geração de renda. Foi assim que passamos a fomentar apresentações culturais para os guaranis, kariris, pataxós. Estimulamos a gravação de CDs, produção de livros, inserção em seminários, fóruns, congressos.  E isto causou um choque em uma parcela da sociedade que via na época, início dos anos noventa, o índio como algo fadado á extinção, ou cuja cultura não poderia transcender os limites de seus modos tradicionais de vida.
Neste período alguns povos começaram a buscar alternativas sustentáveis e foram criando certa independência social. Este fenômeno aconteceu simultaneamente na Amazônia, no Nordeste, no Sudeste e nas áreas urbanas. E modelos se influenciaram mutuamente. Em minhas empreitadas pelas aldeias sempre coloquei a importância de aliarmos três causas: a questão da cultura, a questão da educação e a questão do ambiente. Entendia a cultura como uma qualidade imprescindível e local a ser cuidada, a educação como uma ferramenta de combate á distorções históricas em relação ás nossas raízes afro-tupi que geraram discriminações e desestruturações sociais; e o ambiente como um bem global a ser manejado com sabedoria e cautela. 
Com o passar do tempo, projetos e ações foram se realizando, e com isso veio alguns inesperados reconhecimentos. Em 2003 a Bovespa criou um braço de apoio á projetos ambientais para organizações do terceiro setor e me chamou para ser um dos doze conselheiros. Em seguida, 2005, a Ashoka Empreendedores Sociais, entidade de reconhecimento mundial, me honrou com a valorização e premiação da idéia que gerou uma nova tecnologia social voltada para as comunidades as quais eu trabalhava na época e que foi aperfeiçoada através do Instituto Arapoty.  Descobri que era um empreendedor social, ao unir equilíbrio ecológico, valorização de culturas e geração de renda. Fui chamado para falar disso em diversos países, como Estados Unidos (em San Francisco, Stanford), França (na UNESCO) e Inglaterra (Oxford) em ambientes de públicos diversos, como líderes religiosos, líderes do terceiro setor e empresários.
  Em 2010 a revista Trip reconheceu o conjunto de ações que desempenhava como transformadoras da sociedade, o que para mim e a equipe de trabalho que me acompanha á décadas, foi uma grata e feliz surpresa. Foi nessa época que comecei a achar que passava da hora de haver uma política pública que saísse de premissas assistencialistas para um novo paradigma; o empreendedorismo sustentável e cooperativo. Já havia algumas experiências de sucesso com o Instituto Arapoty, com aliados como Marcelo Rosenbaum, onde sou seu parceiro no programa social A GENTE TRANSFORMA e o Instituto Elos, onde á 14 anos formamos na ESCOLA DE GUERREIROS SEM ARMAS, um novo tipo de protagonismo juvenil com foco na cooperatividade e desenvolvimento de cultura de paz.
De 1994 á 2014 trabalhamos em mais de 90 pequenas comunidades: indígenas, rurais, favelas, cortiços, caiçaras, populações ribeirinhas; recuperando valores culturais e dignidade social. Foram mais de 10.000 famílias que se tornaram gestoras de sua condição econômica e cultural. Projetos realizados com muito voluntarismo, poucos recursos financeiros iniciais e muito respeito á diversidade. Estas iniciativas fecundaram em mim uma síntese de experiências passíveis de colaborar também em propostas de políticas públicas.
O projeto Territórios da Dignidade pretende justamente trazer a voz de líderes e comunidades indígenas para que a sociedade esteja atenta e se abra para acolher propostas de políticas dessas vozes e de nossas raízes. Mas basicamente que saia da condição de dependencia social  e assistencialismo para um empreendedorismo fundamentado no cuidado, manejo adequado de recursos, valorização de culturas locais para o resgate da dignidade de nossas raízes ancestrais.

Um filme sobre os Kaigang

UMA FILOSOFIA ANCESTRAL

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O OLHAR DO ÍNDIO SOBRE SI MESMO

19 de abril
No Masp, Dia do Índio tem exibição de filmes realizados por cineastas indígenas, em cinema movido a energia solar

No Dia do Índio, 19 de abril, das 18h às 20hs acontecerão no vão do Masp apresentações de música, canto e dança e a exibição de filmes produzidos por índios brasileiros, com forma de reflexão à data “comemorativa”. Além disso, será lançada a van produzida para o “Cinesolar Tupã”, que levará a partir de maio os filmes para as aldeias.

Um grande evento no vão do Masp (av. Paulista, 1578) marca o Dia do Índio, 19 de abril, terça-feira, das 18h às 20h, em São Paulo. O projeto de cinema itinerante Cinesolar, que utiliza energia solar - limpa e renovável - para a exibição de filmes fará, em conjunto com o projeto Territórios da Dignidade, o lançamento do “Cinesolar Tupã”. Na ocasião, será apresentada a segunda unidade móvel* do projeto e serão exibidos filmes produzidos por cineastas indígenas. A abertura contará com a apresentação de música e canto de Cristino Wapichana, - músico, escritor, compositor e cineasta - que também mostrará seu filme, “Uni/Versus” e uma apresentação do bailarino e coreógrafo pernambucano Carlos Frevo, radicado há 12 anos na Alemanha, que mostrará a dança folclórica cabloquinho, que é inspirada no Toré, dança tradicional do povo cariri. O evento, que é aberto para todos, serve de reflexão crítica à data comemorativa.
Em maio, o Cinesolar Tupã levará filmes a quatro aldeias guaranis, entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina, promovendo, segundo o escritor e empreendedor Kaká Werá Jecupé, coordenador nacional dos Territórios da Dignidade, um relacionamento lúdico associado a reflexões sobre questões relativas à cultura, valores e cidadania, em meio à pluralidade étnica da sociedade brasileira. 
Kaká destaca que um dos motes do projeto é mostrar a todos (no Masp) e aos índios (nas aldeias) a produção cultural feita pelos próprios índios. “Nas aldeias, é particularmente importante que conheçam e valorizem a sua própria cultura. A falta de valorização é um dos fatores que leva tantos índios ao alcoolismo e ao suicídio”, afirma.
Segundo a idealizadora e coordenadora do Cinesolar, Cynthia Alario, a junção do projeto Territórios da Dignidade com o Cinesolar “se dá na valorização e difusão dos valores da cultura indígena, o que resgata a dignidade cultural através do cinema: seja na exibição dos filmes produzidos pelos cineastas indígenas, seja através da realização de oficinas nas aldeias que o Cinesolar percorrer”. Cynthia diz ainda que o Cinesolar Tupã busca atrelar temas a ancestralidade e tecnologia. “Tem em sua base a difusão da arte, da sustentabilidade, do cinema e da cultura de paz”, afirma.  
O Projeto Territórios da Dignidade tem como objetivo a difusão de visões de mundo das matrizes indígenas do Brasil, como maneira de expressar seus valores e dignidade cultural.  A coordenação e curadoria em São Paulo é do designer e editor Gregor Ossipof e da arquiteta Cris Gouveia.
Estão confirmadas para o Dia 19 no Masp as presenças de Marcelo Rosembaum, responsável, ao lado de Kaká Werá, pelo projeto junto “A gente transforma”, na comunidade Yanawá, no Acre; de Michele Piovesan, modelo e agente do movimento Parque Minhocão; e de Cris Taqua e Carlos Papamirim, cineastas indígenas Guaranis da Aldeia Rio Silveira.
O evento no Masp é realizado pela Brazucah Produções, Cinesolar, Territórios Indígenas da Dignidade e CDG Editora. Tem apoio do Masp, Rádio Yandé, SPCINE, Surya Cosméticos, Vídeo nas Aldeias, Aldeia.SP (mostra de cinema indígena) e Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo.
Van equipada com placas solares que possibilitam, através de um sistema conversor de energia solar para elétrica, a exibição de filmes e apresentações artísticas. No interior do veículo também há cadeiras para o público, sistema de som e projeção, telão e até um estúdio de gravação e edição. Além disso, a van é customizada com a temática indígena.

Sobre o Cinesolar
Inovadora iniciativa brasileira que exibe filmes a partir da energia solar, o Cinesolar, de cinema itinerante, é o primeiro a utilizar a tecnologia no Brasil. Desde 2013 na estrada, contabiliza números positivos à cada sessão. “O Brasil tem um incrível potencial em energias renováveis. E por que não se beneficiar no campo do entretenimento, das artes e da cultura? Nosso objetivo é, além de democratizar o acesso à produção audiovisual nacional, trabalhar com ações sustentáveis que multipliquem a conscientização ambiental e mostrem a força que a energia solar tem por aqui”, diz Cynthia Alario, idealizadora e coordenadora do projeto.
O Cinesolar é equipado com placas solares que possibilitam, através de um sistema conversor de energia solar para elétrica, a exibição de filmes e as apresentações artísticas. No interior do veículo também há cadeiras para o público, sistema de som e projeção, telão e até uma cabine de DJ. Desde o início das atividades, o cinema já realizou mais de 200 sessões em centenas de cidades do País, chegando a cerca de 40 mil espectadores. A economia de energia elétrica chega a 500 mil watts, equivalentes a cerca de 900 horas de uma geladeira ligada sem interrupções.
Os filmes exibidos sempre trabalham questões ligadas à sustentabilidade com foco em três eixos: social, econômico e ambiental. Além das sessões, a iniciativa ainda promove oficinas de cinema, música orgânica e ecografite para crianças e adolescentes. Estas atividades propõem a reciclagem de materiais para a confecção de instrumentos musicais e o preparo de pigmentos naturais, como argila e urucum, nas pinturas produzidas pelos participantes.
O Cinesolar participou de importantes eventos, como o 24º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) 2014, em Goiás Velho (GO). Além disso, o cinema realizou exibições de filmes em alguns espaços da capital paulista, como o Largo da Batata, um dos pontos mais famosos do bairro de Pinheiros.
               O ano de 2015 também foi bastante agitado para o cinema. Além de participar de eventos como o 8º Festival Entretodos e o 3º Festival de Direitos Humanos, o Cinesolar realizou circuitos itinerantes. A iniciativa visitou 10 cidades de Norte a Sul do Brasil, com um público de mais de cinco mil pessoas – entre crianças e adultos. Em agosto, o Cinesolar iniciou um circuito que percorrerá, ao todo, mais de 60 municípios paulistas em parceria com o projeto Cinecidade, até março do ano que 2016.
Agora, o projeto lança sua segunda unidade. “Queremos ampliar o circuito do Cinesolar para todas as regiões do País, e por isso nosso objetivo é percorrer mais caminhos. Esse segundo cinema e a parceria com o Territórios da Dignidade, faz com que o projeto, além de levar a magia da sétima arte, possa ser um elemento para a construção de um mundo melhor”, diz Cynthia.

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BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...