domingo, 27 de outubro de 2013

Sistema agrícola Baniwa é patrimonio cultural brasileiro

No norte da Amazônia, uma tribo de índios domina uma riqueza genética. São os baniwas, mestres na domesticação e no cultivo de dezenas de variedades de pimenta, a maioria nativa.
O som da flauta baniwa é um presente que Mário ganhou do pai, que aprendeu com o avô, que, por sua vez, recebeu dos ancestrais dele. Agora, com o amigo, Luiz tenta manter viva essa música, junto com os utensílios tradicionais e a maloca que ele construiu com as próprias mãos. Na língua baniwa, ele explica que preservar uma música é um passo para preservar uma cultura inteira. O povo dele sempre fez isso.
A equipe de reportagem viajou até a Cabeça do Cachorro, região no extremo norte do Amazonas, para entender como os hábitos dos indígenas ajudaram a preservar uma joia da culinária brasileira: a pimenta. A primeira parada foi em São Gabriel da Cachoeira, uma bela cidade de 38 mil habitantes às margens do rio Negro. Exceto pelo avião, o transporte pelos rios é a única forma de chegar e sair do local..
O destino foi o Tunuí Cachoeira, que fica no rio Içana, terra do povo baniwa. A viagem até lá tem a duração de seis horas. O Exército Brasileiro mantém no trecho os pelotões de fronteira, para proteger a Amazônia. Na região, quase todos os soldados são indígenas que nascerem nas comunidades, que podem ser avistadas nas margens, ao longo da viagem. Eles conhecem muito bem o labirinto de rios no meio da selva.
Tunuí Cachoeira é uma aldeia com pouco mais de 300 pessoas. A entrada da comunidade fica em um remanso muito bonito que as crianças aproveitam para brincam e espantar o calor. Os pequenos e os jovens passam o dia na escola, do campo de futebol. Os adultos têm muito trabalho na roça.
Em Caatinga da Amazônia apenas algumas pimentas são retiradas de cada pé. Elas são cuidadosamente colocadas  em um envelope feito de folhas de ambaúma. "Então, ela protege as pimentas. Para não pegar umidade, ela está preservada e pode durar três, quatro dias", conta o índio baniwa Ronaldo da Silva Apolinário.
Cada espécie é um orgulho para a dona da roça. A índia apresenta o nome das pimentas, "ati itaperri" e "zacuite". "Elas têm sabores diferentes e cheiro diferente", explica Apolinário. No espaço, a maioria das espécies é nativa, mas também tem pimentas trazidas de outras regiões.
Andar em uma clareira, com a moradora Vera Lúcia, é como fazer uma viagem no tempo. O povo baniwa habita a região há, pelo menos três mil anos. É o que existe de registro arqueológico. Talvez exista antes disso. E, como a pimenta é o principal dos ingredientes, é provável que, desde essa época, eles tenham domesticado as várias espécies de pimenta que podem ser encontradas ali.
A mitologia baniwa conta que no início, havia apenas seres primordiais, que ainda não eram gente nem bicho nem planta. Até que um dia, um grupo descobriu a fonte do poder sobre as outras espécies. "Antigamente, existia uma grande árvore que, em baniwa, é chamada 'cari catadapa'. E que, nesta árvore, existia diversos tipos de fruta, uma delas é a pimenta. Então existiam seres chamados 'wacawene' em baniwa. Dentre eles, existia um ser primordial também, que é chamado "inhapculiqueu", que é um dos principais conquistadores de todos os bens da cultura baniwa. Ele usou a pimenta como um instrumento de proteção do próprio corpo e pra cozinhar também os alimentos", conta o índio baniwa Juvêncio Cardoso.
Nos rituais de passagem para a idade adulta, os jovens aprendem que a pimenta é bactericida, ajuda a evitar a contaminação de alimentos consumidos frescos. Na representação, um pássaro é alimentado com peixe e morre. Mas, depois de acrescentar a pimenta, o grupo pode comer com segurança. Da planta mitológica aos dias de hoje, a pimenta manteve a importância e aumentou a presença nas aldeias. Essa é a constatação de uma pesquisa do Programa Jovem Cientista da Amazônia, mantido pela ONG ISA (Instituto Sócio Ambiental). "A gente pesquisou só na bacia do Içana, de Nazaré até Tucumã, e a gente achou 57 variedades", conta a professora baniwa Silvia Garcia da Silva.
Pelas regras dos baniwas, a mulher não pode se casar com um homem da mesma comunidade. Essa medida evita problemas de união entre parentes e ajuda a ter acesso a recursos de outras regiões, como a pimenta, além de facilitar a circulação das sementes e a preservação de espécies. "As mulheres, à medida que se casam, elas se mudam para outra comunidade, para a comunidade do marido, levando sementes, manivas, que é o patrimônio. É com isso que elas podem começar e fundar uma nova família", explica o ecólogo do Instituto Sócio Ambiental (ISA) Adeilson Lopes da Silva.
Em toda a Amazônia já foram catalogadas mais de 150 tipos de pimenta. e, como elas são plantadas juntas, os cruzamentos dão origem a novas variedades. "Existem várias espécies novas, vamos dizer assim, que os baniwa não conseguem dar o nome, porque os pássaros consomem muito a pimenta. Então, eles comem, levam para outro canto e vão plantando junto com as pessoas", diz o índio André Baniwa.
Algumas aldeias têm até encantadoras de pimentas. É sempre uma anciã que herdou os segredos de ancentrais e passou por muitos rituais de preparação ao longo da vida. Ábomi, que significa "avó", em baniwa, canta para fazer as pimentas brilharem. Ela conta que tem 75 anos ou mais, não sabe exatamente a idade, mas, apesar disso, ela não parece ter todos esses anos no rosto. Além disso, tem uma boa saúde. A explicação que ela tem para isso é porque ela vive dentro do jardim de pimenta que cultivou.
Os baniwa querem temperar o resto do país. Construíram, no canto da aldeia, a "aattipana dzoroo". Esse nome tem que ser explicado: "aatti" é "pimenta" e "pana" quer dizer "casa". E "dzoroo" é um besouro da região que constrói uma casinha feia por fora, mas muito lisa por dentro. A casa de pimenta baniwa é simples e pequena, mas o trabalho feito ali segue padrões de qualidade e limpeza definidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
A "aattipana dzorro" tem dezenas de espécies de pimenta conservadas in natura e secas. É um local de estudo e de produção.
Ronaldo e Osinete fabricam na casa de pimenta baniwa a "jiquitaia", que significa "pimenta com sal". O processo é artesanal: as pimentas, de todos os tipos, são trazidas pelas mulheres da aldeia, que recebem pelo que vendem. Elas são selecionadas, muito bem lavadas e colocadas em um forno para secar. Ronaldo é o responsável por transformá-las em pó. Ele fica horas assim e nem pode se sentar. "Se você sentar, o nariz vai ficar perto da boca do pilão e inspirar o pó direito. Aí, não aguenta muito tempo", ele conta.
Do pilão para a peneira, a pimenta precisa ficar bem fina e homogênea. Depois, com ajuda de uma balança, é feita uma mistura: exatos 90% de pimenta para 10% de sal. A produção é pequena é o objetivo é mantê-la assim, para não mudar a rotina da aldeia. Por isso, a pimenta jiquitaia é uma iguaria difícil de ser encontrada. Ela é vendida apenas em algumas casas de São Paulo, por exemplo.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A visão de mundo da tradição tupy

A visão de mundo da tradição tupy pode servir de semente e inspiração para pensarmos em gerar um novo modelo de sociedade em muitos aspectos.  A começar pela estrutura social não hierárquica e com ênfase no cooperativismo. A base social tupy é de decisões coletivas e ações coordenadas para serem viabilizadas por grupos, que se adequam ás tarefas por gosto e prazer e não por imposição de uns sobre outros.
A outra questão é a proposta de consumo e produção. Produzir alimentos e artefatos estritamente de acordo com as possibilidades locais e consumir o estritamente necessário e com ênfase na qualidade daquilo que se produz. além do fato de fazer girar a economia utilizando-se também do sistema de escambo.
Além dessas existem diversas tecnologias sociais que podem inspirar a sociedade neste momento de gravíssima crise ecológica e humana. Mais uma questão imprescindível é o foco no desenvolvimento de valores humanos. No aperfeiçoamento do caráter e da qualidade das relações pessoais e interpessoais.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

População indígena cresce

JANAINA LAGE
da Folha Online, no Rio

O contingente de brasileiros que se consideravam índios cresceu 150% na década de 1990, revela a pesquisa "Tendências Demográficas: uma análise dos indígenas com base nos resultados da amostra dos censos demográficos 1991 e 2000", divulgada hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O ritmo de crescimento é quase seis vezes maior do que o da população em geral.

Esta é a primeira vez que o instituto apresenta informações sócio-demográficas sobre a população indígena brasileira.

Em 1991, o percentual de indígenas em relação à população total brasileira era de 0,2%, o equivalente a 294 mil pessoas. Em 2000, este percentual subiu para 0,4% da população ou 734 mil pessoas. O resultado representa um aumento anual de 10,8% da população, a maior taxa de crescimento dentre todas as categorias. O total do país apresentou um ritmo de crescimento no período de 1,6% ao ano.

A hipótese mais provável para justificar esse crescimento, na avaliação do IBGE, é que houve um aumento da proporção de indígenas urbanizados que optaram por se declarar índios no censo 2000. Anteriormente, esta parcela da população se classificava em outras categorias.

Outros fatores também podem ter interferido, como o crescimento vegetativo, embora por si só não seja capaz de explicar o fenômeno, e a imigração internacional de países limítrofes com alto contingente de população indígena, como Bolívia, Equador, Paraguai e Peru.

A distribuição do crescimento da população indígena não foi uniforme. A região Norte, que abriga a maior participação de indígenas no total do país, apresentou o menor ritmo de crescimento anual. Em 1991, residiam nesta região 42,4% da população indígena. Em 2000, este percentual caiu para 29,1% da população autodeclarada indígena.

O Sudeste dobrou sua participação e passou de 10,4% para 22,0% da população indígena entre 1991 e 2000. Em números absolutos, em 1991 existiam 30,5 mil pessoas que se classificavam como indígenas e em 2000, 161,2 mil pessoas.

No Nordeste, o número de pessoas identificadas como indígenas passou de 55,8 mil para 170 mil no período. A região Centro-Oeste reuniu em 2000 a maior participação de indígenas na população, com 0,9%, mais do que o dobro da média nacional, de 0,4%.

Os cinco Estados que apresentaram maior crescimento da autodeclaração foram Sergipe (28,8%), Piauí (27,0%), Rio Grande do Norte (26,4%), Minas Gerais (26,2%) e Goiás (23,9%).

O aumento da autodeclaração nas regiões Sudeste e Nordeste levou a um aparente efeito de urbanização. Essas regiões têm menor número de terras indígenas homologadas e sofreram movimentos de afirmação da etnia indígena.

Em 1991, a maior parte da população indígena (76,1% ou 223 mil pessoas) vivia em áreas rurais. Em 2000, 383 mil ou 52,0% do total moravam em áreas urbanas.

A população indígena registrou aumento também nas capitais. O percentual passou de 1991 a 2000 de 12,0% para 18,1%. Apesar disso, algumas capitais do Norte, como Porto Velho, Rio Branco e Boa Vista, do Nordeste (Fortaleza) e do Sudeste, com exceção de Vitória, registraram redução na proporção de pessoas que se declaravam indígenas com relação ao total do Estado.

São Gabriel da Cachoeira (AM) e Uiramutã (RR) detinham em 2000 a maior proporção de índios no país, com dois terços da população formada por indígenas.

O aumento da autodeclaração também tem raízes históricas. A categoria indígena só foi incluída no censo de 1991, embora a investigação da cor no primeiro levantamento censitário realizado no Brasil tenha ocorrido em 1872. O último censo, de 2000, divide a população em cinco categorias: branco, preto, amarelo, pardo e indígena.

O IBGE destaca que a formulação do quesito sobre cor ou raça deve ser aperfeiçoada nos censos demográficos brasileiros. Na América Latina, além da auto-identificação, outros critérios são usados em alguns países para a classificação da população indígena, como o idioma ou língua falada, a localização geográfica e outras características

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Problemas relacionados ao terrítório estimula suicídio indígena

ONG associa alta taxa de suícidio entre índios jovens a problemas fundiários

A taxa de suicídio entre os índios guaranis é 34 vezes maior que a taxa nacional. Só ano passado 56 indígenas daquela etnia cometeram suicídio, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A maioria das vítimas tinha idade entre 15 e 29 anos. A pessoa mais jovem da lista era uma criança, de 9 anos.
Esses números foram divulgados hoje pela Survival International para lembrar o Dia Mundial da Saúde Mental, que será comemorado amanhã, 10 de outubro. A organização, que se dedica à defesa de populações indígenas que enfrentam ameaças, alerta que o problema do suicídio entre os jovens guaranis está associado à desorganização social, decorrente da perda de suas terras.
Segundo a organização, o caso dos índios brasileiros não é isolado. Povos indígenas ao redor do mundo apresentam taxas de suicídio mais altas que a média nacional. No caso brasileiro, o problema poderia ser reduzido se as terras reivindicadas pelos guaranis fossem demarcadas.
Ouvido pela organização que tem sede em Londres, o índio Rosalino Ortiz também associa os suicídios entre jovens aos conflitos pela terra. “Os Guarani estão se suicidando por falta da terra. A gente antigamente tinha a liberdade, mas hoje em dia nós não temos mais liberdade. Então, por isso, os nossos jovens vivem pensando que eles não têm mais condições de viver. Eles se sentam e pensam muito, se perdem e se suicidam.”
No Mato Grosso do Sul, grupos indígenas que reivindicam terras estão vivendo em condições precárias à margem de rodovias. As poucas reservas que possuem estão superpovoadas e são comuns casos de desnutrição e alcoolismo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Verdes e Índios pela defesa da Constituição

Verdes na defesa das terras indígenas participam de protesto contra a PEC 215

Manifestações vão ocorrer em todo o Brasil até o dia 5, quando se comemoram os 25 anos de promulgação da Constituição Federal.

Representantes de diferentes etnias indígenas, apoiadores e simpatizantes participaram de protesto, realizado no final da tarde de quarta-feira (2/10), na Avenida Paulista, contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 que tramita na Câmara dos Deputados e tira do Governo Federal a autonomia na demarcação de terras indígenas, quilombolas e zonas de conservação ambiental. Os manifestantes se concentraram em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Dentre os participantes, o líder indigenista Kaká Werá, também dirigente do PV de Itapecerica e membro da direção estadual do Partido Verde (43). De acordo com Werá, a PEC 215 beneficia os interesses de grupos ruralistas. As manifestações são pospostas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

“A questão indígena vai contra interesses de grupos econômicos e a aprovação da emenda favorece, principalmente, a bancada ruralista e grupos ligados ao agronegócio e põe em risco os direitos indígenas já conquistados. E pior, permite a revisão de territórios que já foram demarcados. O protesto faz parte da agenda nacional de manifestações contra a PEC e vai até o dia 5 de outubro, quando comemoraremos os 25 anos da carta magna”, disse Kaká Werá.

A PEC propõe alterações nos procedimentos de demarcação, que passariam a ser regulamentados por lei e não mais por meio de decreto, como atualmente. A aprovação do documento inviabiliza, ainda, a criação de novas reservas, por conta da força da bancada ruralista no Congresso.

“O governo federal é contra a proposta, porque ela é inconstitucional. A presidente Dilma Rousseff tem se posicionado contra e feito declarações públicas sobre o assunto afirmando que o poder de demarcação de terras da União é do Poder Executivo”, complementou Werá.

Segundo Kaká, vários juristas têm se posicionado contra a PEC e um deles é Dalmo Dallari que tem afirmado que as ações de demarcações de terras em grande parte são dificultadas porque senadores interferem nos governos estaduais para que não protejam os direitos consagrados na Constituição.

O debate sobre a PEC ocorre desde 2000. O texto 215 retira a atribuição exclusiva da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, para demarcar terras indígenas. A Carta Magna contém 250 artigos, mas apenas dois são dedicados aos índios, os artigos 231 e 232. 
 Artigo 231: São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
 Artigo 232: Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo.

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BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...