sexta-feira, 25 de maio de 2012

Modelos de liderança: da ancestralidade e da modernidade



Quando se diz a palavra sustentabilidade dentro de um ambiente empresarial, imediatamente associa-se ao lucro como resultado para a manutenção e expansão do empreendimento, pois esta é a natureza de toda empresa. Mas quando se diz a palavra sustentabilidade de um ponto de vista maior na dimensão humana, é necessário pensar também na manutenção do equilíbrio do lugar onde ele habita; no modo como maneja, transforma, cria e utiliza os recursos que se tornarão produtos; e no modo como o ser humano se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
Como a dimensão humana não está fora do ambiente empresarial, e o desafio deste momento é conciliar este dois aspectos: o empreendedor, que é um ser humano, e o empreendimento, que tem como um de seus princípios básicos a geração de riqueza.
 A empresa visa lucro através da venda de produtos e para isso é necessário haver consumo, esta é a lógica natural do empreendimento.  Os recursos primários que eventualmente tornam-se produtos frutificam do ambiente em que vivemos, este é o elo entre natureza e empreendimento.  A natureza, além disso; também é a nossa casa. Mais do que isso: é a casa da humanidade, dos animais, do reino vegetal, do reino mineral e inúmeros e incontáveis seres diversos.
Atualmente uma parcela da humanidade se dá conta que essa “casa”, é viva; e seus recursos obedecem á um ritmo para tornarem-se possíveis de serem extraídos e utilizados. Exatamente neste ponto há um descompasso gravíssimo entre o ritmo da natureza em produzir recursos e o apetite da humanidade em consumí-los. Segundo estudos, se continuarmos consumindo como o fazemos no ritmo atual, em breve período de tempo precisaríamos o equivalente a três planetas “Terra”. Além disso, existem determinados recursos que são finitos, outros se modificam com o passar do tempo, e outros que uma vez extraídos levam longuíssimos séculos para serem gestados e manifestados na superfície ou subsolo terrestre. 

Há uma relação histórica, social e psicológica entre determinados tipos de pessoas e o modo como os recursos naturais foram descobertos, obtidos e explorados ao longo da trajetória humana que pode nos ajudar a entender o dilema da sustentabilidade e da liderança. Os modelos e referências de líderes que se cristalizaram na sociedade contemporânea são decorrentes deste tipo de relação, que consiste no seguinte: o modo como recursos naturais são utilizados, nascem de uma mentalidade de exploração até a exaustão. É uma distorção de usufruto dos recursos causado pelo modo aventureiro e despropositado como lidamos com a nossa “casa” chamada Terra.  
Do ponto de vista arquetípico e histórico, as lideranças e ícones  do passado recente na civilização ocidental foram chamados de “conquistadores” e isto se dava pelo ato das conquistas de “territórios” e espaços onde se encontravam determinadas “riquezas” que na verdade eram “frutos” da terra em determinado ponto ou lugar que em determinada época era a “bola da vez” em termos de importância para consumo.
Foi assim com o “sal” que se tornou medida de riqueza, tornando-se o “salarium” a medida e o valor dos ricos e dos pobres, foi assim com o “louro”, associado depois á glória e riqueza, e também com a canela, a pimenta, a noz moscada, o cravo, o pau-brasil, as pedras preciosas, o petróleo, e chegamos ao absurdo fato de que, em alguns lugares, a água tornou-se comércio e adquiriu valor monetário. E, se a humanidade manter este paradigma de pensamento e de relação com a casa que habita, temos que prestar muita atenção para que amanhã não chegue em nossas mãos a conta do “ar” que respiramos.
O perfil destes líderes do passado ficou como modelo para todas as gerações subsequentes; tinham uma ação intrépida, mas uma visão fragmentada da vida. Além de personalidade aventureira. Normalmente não havia entre eles preocupações familiares ou comunitárias. Como desejavam as coisas que estavam distantes de seu lugar de origem, e como ambicionavam coisas fora da época delas germinarem, contribuíram de modo indireto para criar a idéia da escassez, que geralmente é associada somente ao inverno rígido de determinadas regiões provocando dificuldades extremas de suprimento. Foi essa idéia de escassez, que se relacionava ao ciclos do ecossistema europeu em seus períodos de inverno, que gerou o fenômeno da miséria e da abundância. Não por causa da escassez em si, que era um fato, mas por causa do modo como esta foi utilizada para valorizar e obter proveitosos lucros para uma minoria. Muito diferente por exemplo, da solução que encontrou a sociedade incaica, que guardava grãos para serem compartilhados entre sua comunidade nos tempos difíceis. 
 Foram estes líderes que se tornaram mitos do velho mundo, modelos para a civilização industrial e pós-industrial. O mundo contemporâneo os associa á, “desbravadores”, á “superação de limites”, á “competividade”, mas na verdade são em essência referências predatórias da própria espécie. Talvez, por isso, no reino da natureza o ser humano seja o único que é predador de si mesmo.
A partir desta mitologia do líder ocidental na atual sociedade pós-moderna, onde o consumo não é só de produtos, mas também de serviços, tecnologias, e etc; este modelo de liderança e esta idéia de escassez também persistem, não por necessidade, mas por osmose.  
Já o mundo ancestral, das antigas Américas e Áfricas não utópicas, e mesmo das Europas e Ásias mais distantes; e no entanto reais desde a noite dos tempos; havia um outro tipo de liderança e um outro tipo de empreendimento. Era o líder caçador, o líder pescador e o líder roçador.  Estes líderes não eram aventureiros, eles eram empreendedores sociais. Tinham famílias e pertenciam á uma ordem comunitária que incluía parentes diretos, indiretos e os de acolhimento. Caçavam para o grupo, pescavam para o grupo, plantavam para o grupo. Utilizavam os recursos naturais de acordo com a época da cada coisa, respeitava a sazonalidade, o ritmo, a pulsação da Terra. Eram visionários, místicos e intuitivos, pois faziam isso de acordo com a leitura da lua, do sol e das estrelas para saber o melhor momento de agir. Eram prósperos porque a comunidade era próspera e não porque eram melhores que alguém. E também porque seguiam o fluxo próspero da natureza. Esses líderes exerciam uma liderança sustentável e eram respeitados como portadores de eficiência, sabedoria estratégica, e visão holística.
Muitos destes líderes conheciam a si mesmos, os seus potenciais, as suas deficiências, as suas possibilidades. Existia uma cultura e uma educação para isso. Para tornar-se senhor de si, de seus temperamentos, de seu poder interior, de sua conexão com aspectos intangíveis do ser. Isto não é mito, é fato.  Existiram sistemas que preparavam estes líderes. Hoje tais sistemas são chamados de arcaicos.
Olhar a lua e saber o melhor momento de plantar e de colher. Olhar as estrelas e saber o melhor momento de partir. Seguir o sol conforme a estação. São sabedorias. São tecnologias. São ferramentas de relacionamento com o mundo interior e exterior.  Tais saberes não foram exterminados. Existem ainda hoje, embora fragmentados e dispersos. Existem de modo mais frequente em comunidades humanas mais próximas da natureza. Existe ainda um elo.
A liderança humana e a sustentabilidade podem caminhar juntas de novo. Mas para isso temos que retomar os estudos e pesquisas de antigas ciências contemplativas. Mas para isso temos que nos despir de poderosas distorções e preconceitos em relação á nossa ancestralidade. Temos que revisitá-la. Temos que conhecer a ancestralidade da qual se enraizou á força o Brasil, as Américas, as Áfricas e as Ásias utópicas e não utópicas. Revisitando as raízes mais profundas de nós mesmos, poderemos revitalizar e renovar essa grande árvore chamada humanidade. Revisitando o antigo podemos retomar força e clareza para o presente e criar harmoniosamente um futuro. Mas um futuro de verdade, virtuoso, e não virtual e fragmentado, como se apresenta hoje neste momento tão delicado e terrível desta atual civilização.







Aldeia Karioca é preparada para Rio mais 20

RIO - Índio quer trabalhar na aldeia Kari-Oca. Depois de uma viagem que durou três dias entre o Alto Xingu e o Rio — contando 12 horas de barco e o restante de ônibus —, 21 guerreiros tiveram que adiar a construção das ocas num terreno da Fiocruz, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. O grupo chegou na noite de terça-feira, mas só no fim da tarde desta quinta-feira o trator da prefeitura apareceu para limpar o terreno, tomado pelo mato. Como se trata de área verde, o município dependia de licença ambiental.
Os indígenas, de quatro nações diferentes, estão preocupados com o tempo: são necessários pelo menos dez dias para a montagem das ocas, que precisam ficar prontas antes de 12 de junho. O espaço sediará eventos paralelos à Rio+20, de 13 a 22 de junho. Na noite desta quinta-feira, o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osório, informou que a licença havia sido expedida, permitindo a limpeza, que prossegue durante o dia nesta sexta-feira.
Até esta quinta-feira também faltava a liberação do dinheiro do Ministério do Esporte para alimentação e infraestrutura. Os índios almoçaram num restaurante japonês com sistema self-service, em Jacarepaguá. A conta foi paga no cartão de crédito de um funcionário da Fiocruz.
Eles trouxeram um caminhão de madeira pindaíba, usada na estrutura das ocas do Alto Xingu, em Mato Grosso. O sapê será daqui mesmo. O grupo trabalhará na construção de duas grandes ocas tradicionais, que delimitarão a arena para os rituais e apresentações. Uma delas servirá como entrada para a Kari-Oca.
— Para nós, não é difícil (construir as ocas). Essa casa aí é difícil para nós — disse nesta quinta-feira Paulo Roberto Alrria, de 42 anos, arquiteto da tribo Kamayurá, apontando para um galpão aberto dentro da área da Fiocruz. — A oca é melhor, porque lá dentro é sempre um pouco frio. Não esquenta.
Ele ainda está meio atordoado com o barulho da cidade, mesmo num dos lugares mais bucólicos do Rio. É a primeira vez que a maioria do grupo viaja à capital fluminense:
— Na minha aldeia não tem cidade perto. Fica longe. Não tem barulho de carro. Quando chega à cidade a gente fica com medo do barulho, não dorme direito — afirmou Alrria.
A primeira noite no alojamento da Fiocruz, com camas, foi difícil para o jovem Tukuman Kamayurá, de 23 anos, filho do cacique da aldeia:
— Na cama a gente fica assim, parado. Não tem o balanço da rede. Só fui conseguir dormir às 3h da manhã — contou o jovem líder, de penteado estilo Neymar e brinquinho na orelha.
No primeiro dia na cidade, os construtores nadaram no mar do Recreio. Eles agora querem conhecer as praias da Zona Sul e o Pão de Açúcar, além dos apresentadores William Bonner, Luciano Huck e Faustão. Na aldeia Kamayurá, com mais de 400 índios, a partir das 18h, quando o gerador é ligado, o programa é ver TV ao redor de um único aparelho. A energia acaba às 22h, com exceção das quartas-feiras, dia de jogo de futebol.
Apesar do isolamento, eles estão conectados ao mundo virtual. Prova disso é que o grupo trouxe na bagagem um iPhone, com o qual irão fotografar e filmar todas as etapas da construção da Kari-Oca, que terá uma oca eletrônica, high tech.
De acordo com Tukuman, as equipes trabalharão sete horas por dia, menos nos fins de semana, destinados a passeios na cidade. O arquiteto Araku Aweti, de 52 anos, queria sair à noite, mas está com medo de andar pela colônia. Ele também está incomodado com o fato de ainda não poder começar a trabalhar na construção:
— Não tem trabalho para nós, está demorando. Levamos dois dias para cortar as madeiras, mas a área (da aldeia) está suja. E não deixaram a gente roçar — reclama Aweti, um dos três arquitetos.
À frente da organização da Kari-Oca, o líder indígena Marcos Terena, do Comitê Intertribal, tentava ontem negociar o início dos trabalhos, já que os índios chegaram de surpresa, sem avisar dia e hora exatos. Segundo ele, a oca eletrônica e a da sabedoria, dedicada a líderes espirituais indígenas do mundo todo, serão mistas, com o aproveitamento de construções já existentes no terreno. O espaço dos sábios será montado próximo ao prédio da Fiocruz. Já a aldeia, por determinação da fundação, não poderá ser instalada na área onde ficou a Kari-Oca durante a Rio-92. A montagem será em outra parte do terreno.
Na área da antiga aldeia, ficará apenas o fogo sagrado, que será aceso no pôr-do-sol em 13 de junho, primeiro dia da conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável:
— Ele significa uma nova luz, que abre novos caminhos — afirma Terena.
A aldeia será palco de debates sobre questões polêmicas, como crédito de carbono e reservas minerais em áreas indígenas. Os diálogos produzirão um documento que será entregue à ONU em 17 de junho. Outro evento importante será o lançamento da primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas, em 2013, que ganhou o apoio do prefeito Eduardo Paes para que aconteça no Rio. São esperados na Kari-Oca 400 índios brasileiros, de 20 nações, e outros 1.200 estrangeiros, de países como Estados Unidos, Canadá, Nicarágua e Etiópia.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Superar a miséria social é redignificar o ser

Durante muito tempo da minha vida presenciei que a prática da dependência social a partir de ações que acomodam as pessoas em recebimento de migalhas ocasionais causam grande dano á alma, á dignidade e ao senso de liberdade, tanto no nível individual quanto coletivamente.
A lógica de tais práticas são revestidas de um suposto "bem", contra um suposto "mal" social.
Foi assim que percebi que a melhor maneira de ajudar uma comunidade ou uma pessoa era estimulando-a á descoberta de métodos e possibilidades de ajudarem á si próprias, gerando condições favoráveis através de reflexões de possibilidades e tomadas de iniciativas, tanto no campo da sustentabilidade econômica quanto no campo afetivo pessoal.
Embora tenha trabalhado com indígenas com esse enfoque, percebo que também o indivíduo de classe social baixa necessita do mesmo tipo de estímulo.
Onde a ênfase é fomentar condições para a inserção da pessoa á condição de cidadão de verdade.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Kadiweu busca retomar terras



Desde o último dia 27, os índios da etnia Kadiwéu já ocuparam ao menos 12 fazendas na região de Corumbá, município que fica a 430 quilômetros da capital do estado, Campo Grande. Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), o total de áreas “invadidas” em todo o estado por índios de diversas etnias já chega a 60, aumentando o clima de tensão e de insegurança jurídica em torno da questão.
Segundo as pessoas ouvidas, o conflito no estado só começará a ser resolvido com o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da Ação Cível Ordinária 368-7, ajuizada em 1987, por pecuaristas que disputam com os kadiwéu a propriedade dos 155 mil hectares (um hectare equivale a aproximadamente a um campo de futebol) onde ficam as 12 fazendas ocupadas.
Para os procuradores da República Emerson Kalif Siqueira e Wilson Rocha Assis, que visitaram algumas das propriedades na última sexta-feira (10), as fazendas “ocupadas” estão dentro dos limites da Terra Indígena Kadiwéu, demarcada no início do século passado, e dos limites territoriais do município de Porto Murtinho.
O advogado de seis dos produtores atingidos pela ocupação, Carlos Fernando de Souza, garante ter documentos que demonstram que as fazendas “invadidas” ficam no município de Corumbá e não na cidade vizinha, Porto Murtinho, onde, alega o advogado, fica toda a área destinada pela União ao usufruto dos índios.
“As propriedades invadidas estão fora da área indígena de 373,024 mil hectares, que fica em Porto Murtinho e foi homologada em 1903, por meio de um ato governamental. Os 155 mil hectares sub judice ficam no município de Corumbá”, disse à Agência Brasil o advogado, que já pediu à Justiça Estadual a reintegração de posse de sete propriedades. As primeiras audiências de julgamento dos pedidos estão agendadas para a próxima quinta-feira (17/5).
De acordo com Souza, os 155 mil hectares disputados na Justiça fazem parte de uma área de 726 mil hectares que, em 1921, o então estado de Mato Grosso vendeu à empresa argentina Fomento Sudamericano. Posteriormente, a empresa revendeu uma parcela da propriedade a vários pecuaristas. “Há, no total, 30 propriedades dentro dos 155 mil hectares em litígio no Supremo Tribunal Federal [STF]”, declarou o advogado.
Ainda segundo Souza, em 1984, a Fundação Nacional do Índio (Funai) avançou sobre parte do território que não fazia parte da área já reconhecida como sendo indígena. “A área indígena reconhecida e homologada [em 1903] era de 373 mil hectares. Os 155 mil hectares [invadidos nos últimos dias] já haviam sido vendidos e transmitidos a terceiros, portanto, jamais poderiam ter sido comprometidos. Como incluí-los no total [entre a área originalmente reconhecida] se não houve um novo processo de reconhecimento, dando origem à decantada terra indígena de 538 mil hectares, cuja matrícula foi registrada em Porto Murtinho, mas nunca foi homologada”.
O coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Flávio Vicente Machado, refuta os argumentos do advogado dos fazendeiros. “É uma falácia. Há uma farta documentação comprovando que o território sempre teve 538 mil hectares. Embora, na época, não houvesse como medir uma distância tão grande com tal precisão, há as referências geográficas. O que houve foi que o governo do estado aproveitou a demora para, entre o processo, conceder títulos aos fazendeiros”, disse
Fonte: Agência Brasil

Fonte: Da redação - (MS)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Situação dos índios no Rio de Janeiro Preocupa

                                                                                                                  Folha de São Paulo

O peixe assado na folha de bananeira é preparado no fogão à lenha. A farinha de mandioca já está posta sobre a mesa, rodeada por dez índios. Em uma aldeia no meio da cidade do Rio de Janeiro, o almoço é certo. O que preocupa é o destino do grupo, que vive na área do antigo Museu do Índio. Localizado ao lado do Estádio do Maracanã, palavra que significa arara na língua tupi-guarani, a área pode ser desocupada para obras da Copa do Mundo de 2014.
A intenção dos índios é levar o tema para discussões paralelas com a sociedade na Rio+20.
De acordo com as lideranças no local, há informações controversas sobre o destino do antigo museu, que fica na Tijuca, na zona norte.
"Não queremos tumultuar, mas saber das autoridades, diretamente, qual é o destino disso aqui. Falaram que ia ser passarela, depois, estacionamento, depois shopping esportivo. Não sabemos de nada, estamos apreensivos", disse o representante da Aldeia Maracanã, como foi batizada a ocupação, Carlos Tukano, original do Amazonas.
Em avançado estágio de degradação, o imóvel centenário é simbólico. Foi sede do Serviço de Proteção ao Índio, do marechal Rondon e abrigou o primeiro Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro, posteriormente, transferido para o bairro de Botafogo, na zona sul, onde funciona atualmente. Como não foi tombado por nenhum órgão, o prédio, de dois andares, está em ruínas.
O local foi ocupado pelos índios em 2006. Desde então, os cerca de 20 moradores, das etnias Guajajara, Apurinã, Fulni-ô, Kaingang e Guarani se revezam entre suas aldeias natais e a Maracanã. Reivindicam a criação de um polo de cultura no local para exibir tradições, comercializar artesanato e hospedagem, de acordo com o índio Garapirá Pataxó.
"Aquele museu [do Índio, de Botafogo] não representa a gente. Qualquer pessoa que vá lá percebe que só tem uma arte índia com um preço absurdo, para os gringos. Você não vai nem encontrar indígenas para contar sua história", criticou Garapirá, sobre a instituição administrada pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que não comentou nenhuma das reivindicações."
Responsável pelas intervenções urbanísticas entorno do estádio, a Secretaria Municipal de Obras, disse que a demolição do casarão e a desocupação não estão entre as reformas previstas para a Copa do mundo. Porém, o governo do estado, admite que está comprando área, que pertence ao governo federal. A Casa Civil estadual, não confirma, no entanto, o destino do terreno.
Sobrevivendo da venda de artesanato em feiras e doações, sem apoio da Funai ou da prefeitura, os índios construíram no terreno ao redor do prédio, dez casas com paredes de barro, já que o casarão ameaça desabar, além de uma cozinha comunitária. Há também uma oca central, onde contam histórias para crianças e expõe seus produtos em uma feira mensal.
Procuradas para comentar a ocupação, as secretarias municipais de Assistência Social e de Cultura, assim como a Defensoria Pública informaram que não desenvolvem nenhuma ação no local.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Índio não quer apito

Durante séculos o índio foi estigmatizado pela sociedade brasileira. Folclorizado pelo imaginário cultural, ganhou caricaturas canhestras na década de sessenta, após os filmes de bang bang americanos, como o de dizer as frases erradas, sempre no tempo do verbo fora de lugar. Na constituição nacional está dito que não é capaz de exercer cidadania, completamente.E ver um índio de roupa, tipo calça jeans e camisa, pronto! Claro! Já não é mais índio.
Lembro de um caso ocorrido com meu amigo, Marcos Terena,que quando tentou á décadas atrás estudar para ser piloto de avião, foi rejeitado inicialmente por afirmar ser índio. A solução que encontrou foi procurar outro lugar e dizer que era chileno.
O fato é que os índios estão organizados em associações, desenvolvendo projetos sustentáveis, se formando como educadores, criando organizações literárias, migrando do nordeste para o sudeste, habitando em periferias e favelas de diversas capitais, e tentando participar da vida cidadã em diversos níveis.
Afinal de contas, índio não quer só apito como diz a marchinha de carnaval, o que ele quer mesmo é um mundo melhor, ecologicamente sustentável e socialmente justo.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quem entende de índio


O Estado brasileiro ainda continua tratando a questão indígena como no século XVI, ou seja, de acordo com a política da catequese. No passado era a catequese religiosa, e atualmente é a catequese social. No entanto, atualmente temos grandes líderes indígenas, como Marcos Terena, Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Azilene Kaigang. Estes são alguns dos mais antigos ativistas da causa indígena, que possuem experiência e trãnsito internacional em relação á questão dos direitos humanos.  Mas o governo brasileiro ainda insiste em escolher para cargos de autonomia executiva aqueles que "estudam" ou "estudaram" os índios. São "indigenistas", são "antropólogos", são especialistas disso e daquilo. Mas já passou da hora do próprio parente indígena conduzir as políticas públicas que dizem respeito ás suas raízes. Por mais competentes e estudiosos que sejam tais especialistas, o seu olhar será sempre do ponto de vista alheio á alma mais profunda da cultura ancestral do Brasil.
Durante o ano que passou, em diversos lugares do Brasil, mais notadamente em Mato Grosso do Sul, Maranhão, Bahia; viu-se nos noticiários índios sendo afrontados em sua dignidade, em seus direitos, e inclusive em suas vidas. Ocorre que estes fatos acontecem desde a chegada das caravelas cabralinas, onde temos assistido uma sucessão secular de afrontas.
No entanto, o mundo mudou. O Brasil mudou, os povos indígenas também mudaram. Inúmeras etnias se foram e outras tantas se transformaram, ou foram transformadas á pulso; e atualmente temos líderes indígenas capazes de dar atenção que determinadas circunstâncias merecem. Nesse sentido, precisamos do apoio da sociedade como um todo para que nos ajude a colaborar com o resgate da dignidade das raízes que formaram o povo brasileiro, afinal, quem melhor entende de índio é o próprio índio!

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BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...