quinta-feira, 29 de março de 2012

INDIOS E CRÉDITO DE CARBONO

Do Observatório da Imprensa
Índios, vítimas da imprensa
Por Dalmo de Abreu Dallari

Os índios brasileiros nunca aparecem na grande imprensa com imagem positiva. Quando se publica algo fazendo referência aos índios e às comunidades indígenas o que se tem, num misto de ignorância e má fé, são afirmações e insinuações sobre os inconvenientes e mesmo o risco de serem assegurados aos índios os direitos relacionados com a terra. Essa tem sido a tônica.
Muitas vezes se tem afirmado que a manutenção de grandes àreas em poder dos índios é inconveniente para a economia brasileira, pois eles não produzem para exportação. E com essa afirmação vem a proposta de redução da extensão da ocupação indígena, como aconteceu com a pretensão de reduzir substancialmente a área dos Yanomami, propondo-se que só fosse assegurada aos índios o direito sobre o pequeno espaço das aldeias. E como existem várias aldeias dentro do território Yanomami, o que se propunha era o estabelecimento de uma espécie de “ilhas Yanomami”, isolando cada aldeia e entregando a especuladores de terras, grileiros de luxo ou investidores do agronegócio a quase totalidade da reserva indígena.
Não é raro encontrar a opinião de alguém dizendo que “ é muita terra para pouco índio”, o que autoriza a réplica de que quando somente um casal ou um pequeno número de pessoas ocupa uma grande mansão ou uma residência nobre com jardins, piscina e até quadra de tênis, usando um grande espaço que vai muito além do necessário para a sobrevivência, um índio está autorizado a dizer que “é muita terra para pouco branco”.
Créditos de carbono
Outro argumento que aparece com grande frequência na imprensa é a afirmação de que as reservas indígenas próximas das fronteiras colocam em risco a soberania brasileira, pois os índios não fazem a vigilância necessária para impedir a invasão ou a passagem de estrangeiros.
Uma primeira resposta que se pode dar a essa acusação é que frequentemente, quando se registra uma ocorrência mais marcante relacionada com o tráfico de drogas, aparecem informações, às vezes minuciosas, sobre os caminhos da droga, seja por terra, pelos rios ou pelo ar. Várias vezes se mostrou que a rota dos traficantes passa perto de instalações militares basileiras de fronteira, vindo logo a ressalva de que o controle do tráfico é problema da polícia, não dos militares. E nunca se apontou uma reserva indígena como sendo o caminho da droga, jamais tendo sido divulgada qualquer informação no sentido de que a falta de vigilância pelos índios facilita o tráfico.
E quanto à ocupação de partes de uma reserva indígena por estrangeiros, qualquer pessoa que tenha algum conhecimento dos costumes indígenas sabe que os índios são vigilantes constantemente atentos e muito ciosos de seus territórios.
Noticiário recente é bem revelador do tratamento errado ou malicioso dado às questões relacionadas com terras indígenas. Em matéria de página inteira, ilustrada com foto de 1989 – o que já é sintomático, pois o jornal poderia facilmente obter foto de agora e não usar uma de 23 anos atrás – o jornal O Estado de S.Paulocoloca em caracteres de máxima evidência esta afirmação alarmante: “Por milhões de dólares, índios vendem direitos sobre terras na Amazônia”.
Como era mais do que previsível, isso desencadeou uma verdadeira enxurrada de cartas de leitores, indignados, ou teatralmente indignados, porque os índios estão entregando terras brasileiras da Amazônia a estrangeiros. Na realidade, como a leitura atenta e minuciosa da matéria evidencia, o que houve foi a compra de créditos de carbono por um grupo empresarial sediado na Irlanda e safadamente denominado “Celestial Green Ventures”, sendo, pura e simplesmente, um empreendimento econômico, nada tendo de celestial.
Mas a matéria aqui questionada não trata de venda de terras, como sugere o título.
Fora de dúvida
Por ignorância ou má fé a matéria jornalística usa o título berrante “índios vendem direitos sobre terras na Amazônia”, quando, com um mínimo de conhecimento e de boa fé, é fácil saber que, mesmo que quisessem, os índios não poderiam vender direitos sobre terras que ocupam na Amazônia ou em qualquer parte do Brasil.
Com efeito, diz expressa e claramente o artigo 231 da Constituição brasileira :
“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.
Nesse mesmo artigo, no parágrafo 2°, dispõe-se que “as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes”. E o parágrafo 4° estabelece uma restrição muito enfática, cuja simples leitura deixa bem evidentes o erro e a impropriedade da afirmação de que os índios venderam seus direitos sobre sua terras na Amazônia.
Diz muito claramente o parágrafo 4°: “As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis”. Acrescente-se a isso tudo, o que já seria suficiente para demonstrar a má fé do título escandaloso dado à matéria, que o artigo 20 da Constituição, que faz a enumeração dos bens da União, dispõe, também com absoluta clareza : “São bens da União : XI. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.

Com base nessas disposições constitucionais, fica absolutamente fora de dúvida que os índios não têm a possibilidade jurídica de vender a quem quer que seja, brasileiro ou estrangeiro, seus direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam, na Amazônia, em Goiás, na Bahia, em São Paulo, no Rio Grande do Sul ou em qualquer outra parte do Brasil.
Errada e absurda
Se, por malícia, alguém, seja uma pessoa física, uma empresa ou qualquer instituição, obtiver de um grupo indígena uma promessa de venda de algum desses direitos estará praticando uma ilegalidade sem possibilidade de prosperar, pois, como está claramente disposto na Constituição, esses direitos são inalienáveis. E ainda de acordo com a Constituição é obrigação da União, que é a proprietária das terras indígenas, proteger e fazer respeitar todos os bens existentes nessas terras.
Em conclusão, o título escandaloso da matéria jornalística aqui referida está evidentemente errado pois afirma estar ocorrendo algo que é juridicamente impossível sgundo disposições expressas da Constituição brasileira.
Comportando-se com boa fé e respeitando os preceitos da ética jornalística, a imprensa deveria denunciar qualquer ato de que tivesse conhecimento e que implicasse o eventual envolvimento dos índios, por ingenuidade e ignorância, na tentativa da prática de alguma ilegalidade. Mas, evidentemente, é absurda, errada e de má fé a afirmação de que os índios vendam direitos sobre terras na Amazônia.
***
[Dalmo de Abreu Dallari é jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da USP]

Vale a pena assistir


terça-feira, 27 de março de 2012

Eu, você e a natureza somos um só

Se observarmos do ponto de vista da matéria vamos perceber que somos compostos de minerais, que estão por todo o nosso organismo físico e celular. Vamos observar que temos a nossa herança biológica dos vegetais e também dos animais. Além disso, nosso organismo tem o mesmo percentual de água analogicamente ao que a Mãe Terra possui.
Se observarmos do ponto de vista das tradições místicas mais antigas, somos uma síntese dos quatro elementos: terra, água, fogo e ar; que influenciam em nossos temperamentos, em nossas características psicológicas, e também físicas.
A natureza está em nós e nós estamos na natureza, e embora a ciência, a tecnologia, o pensamento humano se tornam cada vez mais complexos, tudo que existe provêm da natureza.
É por este motivo que devemos honrá-la, agradecê-la e reverenciá-la. Ela se tansforma em teto para nosso conforto, tecnologia para nossas atividades, roupa para nosso corpo, remédio para as nossas desarmonias, alimento para a nossa fome. além disso, nos demonstra que a vida é doação, serviço, amor, renovação e impermanência.

ESTAMOS PREPARANDO A TEIA NO EMBU

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primeira TEIA REGIONAL Oeste em EMBU,

APÓS A PRIMEIRA TEIA DE ENCONTRO COM OS PONTOS DE CULTURA DA REGIÃO, ESTAMOS PREPARANDO A SEGUNDA TEIA NO EMBU, AGUARDEM!!!

Índios atentam para os megaprojetos do governo

Brasília - De um lado, os megaprojetos tocados pelo governo com o objetivo de criação de infraestrutura e geração de energia. De outro, os índios que lutam para ter condições de permanecer em suas terras. O cenário, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, é de conflito, de acordo com o relato de cerca de 200 lideranças indígenas, que estão reunidas em Brasília em um encontro nacional organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Um levantamento feito pelo Cimi apontou 434 empreendimentos que afetam diretamente comunidades indígenas. Desses, 195 são destinados à geração de energia. Outros 166 são de criação de infraestrutura. Os números de hidrelétricas e obras de infraestrutura superam em muito o impacto de obras destinadas à mineração, por exemplo, que somaram 29, segundo o levantamento.

A partir de amanhã (2), as lideranças se juntarão a mais 300 índios e pretendem ficar acampados no gramado em frente ao Congresso Nacional até quinta-feira (5), no movimento chamado Acampamento Terra Livre. Os índios querem, entre outras reivindicações, que o governo desista da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, e que pare as obras de transposição do Rio São Francisco, cercadas de polêmica desde o governo passado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou a decisão de tocá-las.

“É uma coisa que o governo quer fazer sem conhecer a realidade dos povos indígenas”, reclamou Josinei Nascimento Gonçalves, liderança da tribo Arara, da aldeia Terra Wongã, que fica na chamada Grande Volta do Xingu, região que será afetada pela construção de Belo Monte.

Oportunidade


Muitas vezes ficamos esperando que as coisas aconteçam por si mesmas. Mas o vento não sopra á toa, sem um intento sagrado e misterioso, assim também como o sol não irradia porque é resultado de complexos acidentes fenomênicos, como quer fazer crer determinadas crenças chamadas científicas. Nenhuma manhã surge sem um propósito claro e nem a noite vem sem consciência de seu mistério. A vida segue o impulso da alma e a alma traz a sabedoria do espírito universal, assim declaram os antigos sábios da tradição. Assim, a oportunidade surge de uma sintonia entre a nossa mente racional e a alma que dá ritmo ao coração da vida. Por isso, aprender a escutar a alma é aprender a ver as oportunidades que a sabedoria universal disponibiliza em nossas jornadas. Ah! Que possamos aprender e desenvolver esta escuta!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Com o jogador de futebol Leandro e o diretor da Folha do Vale, Fernando Freitas, durante a entrega do troféu Top de Mídia, em Braço do Norte, Santa Catarina.

Salve Umami

Minha amiga Paula Vidal, que adaptou em tempos passados o meu livro A TERRA DOS MIL POVOS para o belo espetáculo de dança CORPOS DE LUZ, agora está com um novo espetáculo que estréia esta semana no Teatro municipal de Ribeirão Preto-SP, que se chama UMAMI, vale a pena conferir!
Sucesso ao Dança Vida!!!

Índios e a questão do crédito de carbono

A empresa irlandesa Celestial Green Ventures, uma das líderes no mercado mundial de créditos de carbono, informou ontem o jornal "O Estado de S.Paulo" que realizou um negócio com os índios.
A operação comercial, avaliada em US$ 120 milhões, não teve o apoio unânime da tribo e é investigada pelo governo brasileiro, que questiona a vigência de 30 anos de um contrato que proíbe a comunidade indígena de extrair madeira ou desenvolver cultivos agrícolas.
As terras ficam no município de Jacareacanga (PA). Segundo o "O Estado de S.Paulo", que teve acesso ao documento do contrato, as autoridades temem que a cessão dos direitos atentem contra a biodiversidade e o desenvolvimento desse povo indígena.
Outra das cláusulas questionadas do contrato é sobre o livre acesso da empresa aos territórios indígenas, que, por lei, são autônomos de autorizar ou recusar a entrada de pessoas alheias à comunidade.
A Fundação Nacional do Índio (Funai) registrou 30 contratos similares entre etnias indígenas e empresas europeias dedicadas à comercialização de créditos de carbono, mecanismo pelo qual se compensa a emissão de gases por parte das companhias industriais, principalmente das grandes potências.
A Celestial Green Ventures tem 16 projetos na Amazônia brasileira, que somam quase 200 mil quilômetros quadrados e representam mais que o dobro da superfície de Portugal.
"Temos de evitar que oportunidades para avançarmos na valorização da biodiversidade disfarcem ações de biopirataria", declarou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.
O principal executivo da Celestial Green, Ciaran Kelly, alega que todos os contratos passam por um "rigoroso processo de consentimento livre, prévio e informado" e que atende às normas internacionais.
(Redação com agência EFE - www.ultimoinstante.com.br)



quarta-feira, 21 de março de 2012

Top de Mídia, premio pela sustentabilidade

Recentemente fui á Santa Catarina participar de um evento chamado TOP DE MÍDIA, de grande relevância naquele ponto do sul do país, que homenageia empreendedores da cidade do Braço do Norte e Gravatal e também determinados convidados especiais por contribuições culturais e sociais na região e no Brasil.
Para mim foi também um momento nostálgico de minha relação com aquele lugar. No final dos anos 80 realizei junto com um pequeno grupo de amigos um trabalho social para o povo guarani da região e que foi muito difícil;  na verdade não cumprimos o objetivo central da ação, que era mudar uma mentalidade coletiva fundada no assistencialismo e no sentimento de inferioridade perante á cultura dos colonizadores. Dez anos depois, no entanto, havia tecido uma rede de amigos, educadores, empreendedores, sonhadores, terapeutas e ativistas ambientais; que de certa forma continuaram semeando e praticando uma filosofia da cooperatividade, da solidariedade e do cuidado com a natureza. Eles se tornaram os guerreiros do coração e caminhantes pela paz. Sim, existe uma caminhada pela paz na região que tive o privilégio de participar da primeira em 1999 e hoje está na décima-terceira.
De algum modo, embora nas aldeias ainda seja incipiente as ações sustentáveis que se substituem pelas assistencilistas e depredadoras, nas gerações pós década de 90 temos círculos cada vez maiores de pessoas pensando globalmente e agindo localmente pelo bem estar do "Todo" e não somente de "si mesmo". E isto é realmente revolucionário.
Por isso agradeço muito fazer parte desta rede de amigos do sul do país, desta região belíssima, e torce ao mesmo tempo em que agimos, para que a qualidade de vida e das relações cada vez mais melhorem nestes tempos de transição e de mudança de paradigma!
Embora eu tenha sido homenageado, na verdade, é essa complexa rede do bem sustenta este reconhecimento! Muito Obrigado! Embora tive que fazer um enorme esforço para vestir essa armadura pós-moderna com aquela gravatinha estranha!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Índios querem ser consultados sobre projetos de barragens

Os índios convidaram procuradores da República do Pará e do Mato Grosso para falar da revolta pela forma como o governo tenta barrar o rio sem consultá-los.
Procuradores da República do Mato Grosso e do Pará estiveram semana passada na Terra Indígena Kayabi, na divisa entre os dois estados, a convite dos índios Kayabi e Munduruku, para debater os projetos de usinas hidrelétricas que afetam suas terras. Em outubro, essas mesmas etnias fizeram reféns sete funcionários da Funai e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) que faziam estudos sobre as hidrelétricas.


O governo federal planeja seis barragens para o Teles Pires, que juntamente como o Juruena, forma o rio Tapajós. Para a bacia toda, que inclui ainda os rios Jamanxim e Apiacás, o plano é fazer um total de 16 barragens, o que vai impactar de maneira decisiva mais de 10 mil indígenas que vivem as margens desses rios e dependem deles para sobreviver.

Inconformados com os projetos e com a velocidade dos acontecimentos –as usinas Teles Pires, Colíder e Sinop já estão em execução, sem estudos indígenas concluidos – os índios convidaram os procuradores da República que atuam no Mato Grosso e no Pará, para uma visita à aldeia Kururuzinho onde denunciaram a forma como o governo conduz os empreendimentos e o abandono que as comunidades enfrentam. O MPF já iniciou duas ações civis públicas na Justiça Federal contra as usinas Teles Pires e São Manoel e acompanham o andamento das outras.

A principal queixa dos índios é a ausência de consulta sobre os empreendimentos. “Pra quê todos os governos do mundo assinaram a Convenção 169?”, questionou Jairo Munduruku, referindo-se à convenção internacional da qual o Brasil é signatário, que obriga consulta aos povos indígenas para projetos de infraestrutura que afetem suas terras.

“Se o governo tá desrespeitando a lei, a Constituição, a Convenção169, tá desrespeitando também todos os caciques. E pra nós isso é questão de vida ou morte, porque a água é a nossa vida”, discursou. “Enquanto tiver cacique e tiver a Constituição, vamos lutar contra essas barragens”, finalizou.

A cidade dos antepassados mortos
Além da perda dos peixes e da navegação, bases da vida indígena,uma das questões mais graves para os índios é a destruição de três locais sagrados de suas crenças no rio Teles Pires: o Morro do Jabuti, o dos Macacos e um conjunto de cachoeiras conhecidas como Sete Quedas. Eles acreditam, segundo a tradição, que nesses locais vivem os antepassados mortos e que, se eles permitirem a violação, grandes tragédias se abaterão sobre a região. “Vai acontecer muita coisa ruim com branco e com índio, nós avisamos, mas branco é teimoso”, disse Walmar Munduruku.


“O branco tem seu patrimônio cultural dentro da cidade, o patrimônio cultural dos índios é nos campos, no mato, nas cachoeiras, no rio”,explicou Walmar. “As coisas aqui são sagradas, que nossos avós e Deus deixaram pra nós. Nas Sete Quedas onde estão os maiores peixes do mundo é onde mora também a Mãe dos Peixes”, relatou José Emiliano Munduruku.



Ele explicou a crença deles sobre o local: “É por isso que os peixes vêm todo ano, para visitar as sete cachoeiras onde vive a mãe deles. Não pode mexer lá, se a gente deixar mexer, vai levar muita gente junto, porque embaixo das cachoeiras tem uma cidade que não é dos brancos, é dos índios. É a cidade para onde vão todos os índios mortos”, contou.

A importância religiosa e mitológica que os índios atribuem ao local coincide com a importância ecológica: nas sete cachoeiras enfileiradas, de fato, ocorre a desova de algumas espécies de peixes da região, como pacu, pirarara, matrinchã, pintado e piraíba, que chegam a medir até 2 metros.

Apesar dos apelos e temores dos índios, as cachoeiras de Sete Quedas no rio Teles Pires podem ser destruídas a qualquer momento, porque o Consórcio Construtor da Usina Teles Pires já começou a fazer explosões nessa área do rio, mesmo com a usina sendo questionada pelo Tribunal de Contas da União e por ação judicial do MPF. Entre as irregularidades apontadas, ainda não julgadas pela Justiça Federal de Belém, consta a falha dos Estudos em apontar todos os impactos.

No caso dos impactos sobre a reprodução e sobrevivência das espécies de peixes há sérios problemas nos estudos ictiológicos, que não chegaram a fazer observação em campo e foram considerados insuficientes pelo próprio Ibama.

No caso do patrimônio cultural indígena relacionado aos acidentes geográficos do Teles Pires, o problema é ainda mais grave. O governo brasileiro não se preocupou em identificar e estudar a importância cosmológica, mitológica e religiosa do rio, desrespeitando o direito dos índios à própria identidade cultural.

“Só vêm aqui falar sobre barragem”
Elenildo Kayabi acrescentou seu espanto com a rapidez dos projetos. “Eles estão atropelando a gente, quando começamos a entender a usina de Teles Pires, eles já vieram com a usina de São Manoel”, disse. E ironiza as soluções da engenharia para os problemas que as usinas vão causar: “falam pra gente que o peixe vai subir normalmente, que eles vão fazer elevador, a gente até faz piada com isso: se tem gente que se perde em elevador lá em Brasília, imagine os peixes aqui”.

“O governo e a Funai nunca vieram aqui falar sobre demarcação, saúde, educação. Só vêm aqui falar sobre barragem”, se admirou Floriano Munduruku. “A gente acredita que um dia vai ter um limite, branco vai parar, estudar outra forma de energia para deixar a gente em paz. Nossa vida era muito fácil, agora vai ficar muito difícil”, disse.

A revolta dos índios chegou ao ponto de, em outubro, fazerem reféns os sete funcionários que foram à aldeia Kururuzinho para falar de barragens. Os reféns chegaram a ser ameaçados de morte e foi construída uma gaiola no centro da aldeia para prendê-los se o governo não paralisasse o projeto da usina. A gaiola ainda está lá, como uma lembrança da revolta dos índios.

Sinais contraditórios
Depois que libertaram os reféns, com a presença do exército e da Polícia Federal, os Kayabi e os Munduruku foram levados para uma reunião em Brasília com representantes dos Ministérios das Minas e Energia, Meio Ambiente e Justiça. Eles exigiram a paralisação do processo de licenciamento das usinas, mas até hoje não receberam nenhum documento sobre a reunião.

Sinais contraditórios são emitidos de Brasília sobre a Usina de São Manoel, o estopim da revolta, projeto que estava previsto para entrar no próximo leilão de energia, e que incide diretamente sobre a Terra Kayabi. Para libertar os reféns, o governo prometeu adiar as audiências públicas, mas publicou o edital delas no Diário Oficial e recorreu contra a liminar do MPF que garantia o adiamento.

Depois de nova carta dos índios acusando o governo de traição, o Ibama voltou atrás e comunicou que as audiências estavam realmente adiadas. Elas não ocorreram no última dia 25 de novembro, como anteriormente previsto.

Mas, no dia 21 de novembro, no balanço do PAC apresentado pela ministra do Planejamento Miriam Belchior, a usina de São Manoel aparece como pronta para receber Licença Prévia até 30 de janeiro de 2012. E ainda não foi retirada do edital do leilão do próximo dia 20 de dezembro, que está no site da Agência Nacional de Energia Elétrica.

“Concordamos com os índios que a rapidez e o atropelamento do processo são assustadores”, diz o procurador Felício Pontes Jr., que acompanha o caso a partir de Belém. “Como o governo anuncia a data para uma usina receber licença prévia sem ter feito consulta ou sequer concluído os estudos dos impactos aos índios?”, pergunta a procuradora da República Márcia Zollinger, que atua em Mato Grosso.

Além das UHE São Manoel e Teles Pires, afetando diretamente as Terras Munduruku, Apiacá e Kayabi o governo projeta as usinas de Foz do Apiacás, Colíder e Teles Pires. Para nenhuma delas até agora foi feita consulta aos índios ou concluídos estudos de impacto sobre a vida deles.



Procuradoria da República em Mato Grosso

Ministério Público Federal no Pará

Assessoria de Comunicação

quarta-feira, 7 de março de 2012

Diversidade e Respeito

 A própria natureza demonstra que a vida prospera através da diversidade, basta olhar a floresta amazônica, a mata atlântica, o cerrado. A troca de experiências favorece a expansão da sabedoria quando culturas se abrem para conhecerem outras maneiras de sentir e ver o mundo. Por isso não existe nada mais nocivo que a discriminação, o racismo, o fundamentalismo e outras formas de manifestar ignorância.

sábado, 3 de março de 2012

Reverenciar a natureza interior de cada um

 O modelo de pensamento da sociedade atual separa o homem da natureza, por isso vê o índio como uma coisa estranha, exótica, quase irreal. Na verdade os diversos povos chamados indígenas preservam uma consciência de que não existe de fato separação entre homem e natureza. Os mesmos princípios que regem ela, também regem ele. Nos mitos dos povos ancestrais o ser humano desdobrou-se da natureza, por isso porta temperamentos, tendências psíquicas, e predisposições subjetivas diversas que de alguma maneira revelam a sutil e profunda relação entre um e outro.
Por isso na cultura de diversas etnias se reverencia florestas, montanhas, rios, planícies e planaltos. Por isso se reverencia também os animais e as plantas, pois se reconhece que a grande Vida que inspira e expira em cada coisa é a mesma vida, a mesma presença.




sexta-feira, 2 de março de 2012

Eu Maior

aulas de viver o verde

Precisamos re-aprender a viver a vida de modo natural. Respirar ar puro, andar descalço, peregrinar por trilhas, conhecer diversos ecossistemas, brincar com joaninhas e borboletas. Precisamos mergulhar em rios límpidos, tomar banho de cachoeira, ouvir os cantos dos pássaros. Precisamos ficar olhando estrelas de noite, bem naquela noite sem lua. Contar os riscos das estrelas cadentes. Precisamos viver a vida simples de novo.

Postagem em destaque

BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...