segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um tapuia na cidade

No início dos anos 90 tive o privilégio de compartilhar uma mesa redonda com Orlando Villas Boas no SESC de Santos, em São Paulo. Naquele momento eu e minha esposa, Elaine Silva, promovíamos ações de apoio á aldeia guarani de Boracéia, próximo á Bertioga, de caráter de prestação de assistência social. Fazia palestras sobre cultura indígena e as pessoas pagavam com alimentos que eram doados para as comunidades.
Na ocasião, Orlando narrou suas aventuras na histórica marcha para o Oeste e, ao saber que eu me posicionava como um servidor da comunidade guarani ele disse:
- mas você não tem cara de guarani, você tem jeito de txukarramãe.
- E o que é um txukarramãe? - Perguntei.
- É um guerreiro sem arco e sem flecha, pois eles não utilizavam estas armas.
- Então tudo bem, sou um guerreiro sem armas, um guerreiro da paz!!!
Desde então me posicionei como um servidor da paz; mas isto causou depois uma confusão em relação á minha origem étnica. Pois os jornais começaram a noticiar que eu era um txukarramãe, mas não no sentido figurado.
Na verdade nasci em São Paulo, na capital, na divisa entre a periferia e a mata atlântica da Serra do Mar, próximo á última aldeia indígena nesta região. Sou um índio urbano. No entanto, o destino me fez conhecer o povo guarani, cuja sabedoria fez-me re-encontrar com minhas raízes ancestrais.
Minha família migrou para a capital paulistana na década de sessenta, vinda do norte de Minas Gerais, e já eram desaldeados nesta época. No passado foram genericamente chamados de tapuia. Das tradições, mantinham os valores internos, a alma, e um cauteloso silêncio cultural. Meu pai queria que me tornasse letrado para sobreviver á selva de aço e pedra que crescia diante do lugar em que habitávamos, e assim foi.
Mas o coração e o tempo me levaram de volta para a aldeia. Convivi com os guarani, convivi com os Krahô, com os Kamaiurá, com os Xavante, com Krenak, com Pataxó, com Pankararu. Conheci parente do cerrado, da amazônia, da mata atlântica, da favela, da periferia.
Nos anos 90 iniciei um caminho de buscar apoio á determinadas comunidades. Depois me especializei na difusão dos princípios e valores da cultura de matriz tupy, e depois no desafio de buscar soluções sustentáveis e dignidade para estas comunidades remanescentes destas raízes, que não são somente minhas, mas do Brasil.
Casei, tive filhos, e minha esposa bem como minha família não só me apóiam, mas também realizam inúmeras atividades ligadas á esta causa. Somos um clã de paz, mas que luta, e novamente me vem a metáfora do txukarramãe.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

a vida acontece dentro de nós


A vida começa do interior de cada um de nós. Frequentemente ouço comentários sobre a vida a partir de fora. Do que acontece do outro lado do mundo. Do que acontece do alto das hierarquias de poder. Do que acontece a partir das crises econômicas. Com certeza certas percepções nos inflluenciam demasiadamente. Mas devemos lembrar que a vida acontece a partir de dentro de cada um. do mundo interior que cada um carrega dentro de si. e este mundo interior é decisivo na qualidade da vida que levamos, ele tem mais poder de influenciar do que de ser influenciado. Por isso a importância de prestar atenção para uma ecologia da mente. Uma despoluição da mente. Uma meditação diária daquilo que devemos por ênfase ou ação.
A vida é assim. Nasce do silêncio, neutro e luminoso, e depois nós a vamos qualificando.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rostos

O vento bate no rosto cujo corpo dobra a esquina de uma rua vulgar, como a lua cheia, como esta noite, como esta quantidade de passos de gente que passa distraída de si. Assim como eu. Respiramos enigmas. Ninguém conhece ninguém. Até que o rosto some. A rua some. O som dos passos lampejam. A escrita no muro ao lado lampeja questões sobre o anonimato e a gratuidade da vida na metrópole. Coisas sem nexo. O ar da cidade está seco. O olho lacrimeja. Não sei se os passos que ouço acham normal.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sobre mais uma vez o agora

É difícil estar presente na vida. Sonhamos acordados. Habitamos nas esquinas das expectativas, nas vilas das lamúrias, nas ruas das preocupações, nas avenidas do stress, nos bairros das desilusões, na casa dos outros, nas tarefas automáticas e de vez em quando nos fazemos presente.
Agora mesmo o luar respira pela fresta da janela e há sons de cães bem ao longe na estrada. mas o corpo insiste em prestar atenção no noticiário televisivo, enquanto os olhos passeiam pelas notícias virtuais.
A vida é assombrosamente prateada e azul na noite...
Agora...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Ministério até pra peixe. Já pro índio...

por Geraldinho Vieira

“A questão indígena é inspiração para todos os modelos que defendem qualidade de vida, eco-sustentabilidade e re-ligação do homem à terra e ao grande mistério. No entanto, a maneira como ela é abordada conduz, atualmente, para um olhar exótico e folclórico. A questão indígena está fragmentada em problemas ditos de minorias, mas diz respeito ao profundo humano que habita em nós”.

Kaká Werá Jecupé, 46, índio de origem tapuia ou txucarramãe, é escritor, professor, conferencista que já encantou platéias mundo afora, empreendedor social da Ashoka e um dos vencedores do prêmio Transformadores (promovido pela revista Trip).

Fundador do Instituto Arapoty (www.institutoarapoty.org.br), é com ele nossa conversa direta ao ponto deste domingo, décima-terceira desta série Eleições & Sociedade Civil – sobre o que lideranças sociais estão vendo e ainda esperam do processo eleitoral.

Pergunto a Kaká se a questão indígena ficará sempre estigmatizada num debate sobre futuro do Brasil ou ele vê esperança de um espaço adequado na agenda pública.

Guerreiro sem arma, nome que ganhou ao ser adotado pela aldeia guarani Morro da Saudade (periferia sul de São Paulo), Kaká Werá consegue ver avanços (“no atual governo”) em temas como a demarcação de terras e a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura indígena nas escolas, mas abre o verbo: “Existe um ministério de integração racial, mas há apenas a pauta do movimento negro. Existe um ministério até para o peixe, mas para a população indígena o que há é um órgão cambaleante, que não consegue pensar políticas específicas para a diversidade de povos indígenas incluindo aqueles que estão inseridos na sociedade urbana”.

Nota do redator: são 300 mil os índios aldeados hoje no Brasil, e quase o mesmo número de índios urbanos.

“Temos que ver o índio hoje em sua diversidade de manifestações: na floresta, na cidade, na escola, no mercado de trabalho...”, diz Kaká. E completa: “Não existe uma política que considere este índio inserido como um lumpen em plena selva de pedra. E, por outro lado, o índio da floresta está além de toda esta chamada civilização, está além de todos nós. O índio da floresta não esta poluído em nenhum grau, nem físico, nem mental e nem espiritual... há de se ter um olhar especial para ele, um olhar de cuidado e respeito.”.

Não há uma mobilização para que a vida desses 600 mil brasileiros esteja na agenda, questiono. Kaká concorda. Para ele, isto depende muito da capacidade dos líderes indígenas, dos indigenistas e dos ambientalistas que se ocupam também do tema. “A única candidata que expressa uma preocupação com esta questão é Marina Silva” – flagra.

- Como você vê o papel da imprensa no debate eleitoral como um todo e, de forma mais permanente sobre a questão indígena?

A imprensa, diz Kaká, tem procurado exercer o seu papel de provocar debates e colocar os candidatos diante da sociedade, “mas os candidatos à frente da disputa estão fazendo mais marketing do que exposição de propósitos. Em relação {a questão indígena, a imprensa deixa a desejar, pois ela trabalha ainda de uma maneira limitada e preconceituosa. Somente quando algum fato terrível ocorre....”.

Interrompo... para a imprensa vocês são “os selvagens”?

“Por exemplo, quando índios prendem estrategicamente pessoas para exporem seus conflitos... agora, sem esta tática a imprensa nem fala neles... Acaba passando a idéia de que índio vive usando pessoas como reféns para seus supostos interesses de pouco valor”.

Interrompo de novo, pensando em voz alta que os Sem Terra reclamam da mesma forma de tratamento por parte da imprensa...

“O problema em relação aos Sem Terra” - diz Kaká Werá - “é a sociedade conseguir separar o joio do trigo, ou seja, os Sem Terra são mais politizados, e existem aqueles que são politizados para uma atuação idêntica a esta política mesquinha. São os que na verdade defendem grupos políticos específicos para obterem bônus e recursos... digo isso porque vejo e não pelo que leio a respeito. E existem os inocentes, os pais de família, os trabalhadores da terra... estes estão no meio do fogo cruzado”.

Mas são todos colocados no mesmo patamar e tratados como "outros", quase alienígenas...

“A sociedade urbana, consumista, esquece que tudo vem da terra, alimento, tecnologia, roupa... Por vezes, a sociedade esquece que sem trabalhadores na terra não há continuidade de produção de tudo que necessitamos para viver, morar e vestir” – diz o autor de “A terra dos mil povos - História indígena do Brasil contada por um índio” (entre outros títulos).

Onde você arruma esperança de um dia ver Brasil mais inclusivo?

“O Brasil possui uma das maiores diversidades humanas, todas as raças estão aqui, podemos ser um modelo de nação inclusiva. O Brasil possui uma das maiores diversidades de ecossistemas, podemos ser um modelo de desenvolvimento sustentável. O Brasil possui um povo aberto à espiritualidade, podemos ser um modelo de supra-religiosidade”.

Postagem em destaque

BIOGRAFIA DE KAKÁ WERÁ

  Educador. Terapeuta. Empreendedor Social.Ambientalista. Escritor Kaká Werá é psicoterapeuta de formação, de abordagem holística e tra...